«Se bem me recordo era uma rapariga esbelta, bem apessoada, cabello escuro e farto com um ar de desenvoltura sem ultrapassar as conveniencias da sua posição para com quem a favorecia, trajando limpa mas modestamente sem fazer lembrar a desgraça da classe em que menos o vicio que a miseria a havia precipitado, e que pela sua timidez se mostrava contrafeita no meio social em que ali se achava.

«É possivel que a Severa no seu meio ordinario fosse a desregrada fadista da lenda, mas o que de visu posso assegurar, e para confirmação do que appello para os que, ainda vivos, frequentaram as boas e más companhias da nossa mocidade, é que a impressão que conservo da desgraçada heroina, hoje tão celebrada, apenas se limita a uma satisfação passageira e caprichosa do conde, que como o gastronomo saciado do continuo gozo da boa cosinha se deleita com satisfação no apetitoso prato de sardinha ou no enlevo odorifero do acepipe de taberna.»

Não lhe nega o sr. Queriol um certo «ar de desenvoltura», o ar canaille da sua profissão provocante. Mas conheceu que a Severa, em casa do conde, perante tão luzida companhia de mulheres que valiam mais do que ella, e de homens que eram os primeiros estroinas elegantes da epoca, se mostrava submissa, quasi timida.

Nenhuma d’aquellas pessoas—ou todas ellas—a teria acobardado cara a cara na sua casinha de rameira, onde Palmeirim a viu, quando ella, entregue a si mesma, não era mais do que a Severa da matricula, uma desgraçada como outra qualquer.

Mas, no palacio do Campo Grande, acabava a realidade e começava o sonho.

Ella era como um actor que vae entrar em scena e que, sempre nervoso e agitado, por maior que seja o seu merito, já sente o calor da ribalta, a respiração do publico, o frémito da sala.

Toda a gente sabe que nem os grandes actores escapam á timidez supersticiosa, quando entre bastidores esperam a «deixa.» Todos elles se persignam antes de se defrontar com o auditorio. Mas uma vez em scena, entram n’uma região ideal que os absorve, e ás vezes os divinisa. Já não são timidos, nem supersticiosos; vão affoitamente até onde o seu talento os leva.

A Severa, tal como o sr. Queriol a viu, achava-se na situação hesitante, no momento indeciso, do actor que sae da realidade para entrar no mundo do sonho.

Depois, tangida a guitarra, ella era como um artista em scena: commovia-se, soluçava, chorava, cantava chorando, arrebatava-se e arrebatava os outros.

A guitarra é, pela sua voz maviosa, um dos instrumentos que mais impressionam, talvez o primeiro em produzir effeitos de sentimentalidade; o Fado tem o que quer que seja de simplicidade grandiosa e dilacerante, como toda a expressão de uma dor sincera.