O sr. Julio de Castilho n’um dos seus livros confessou de si mesmo esta intima fragilidade: «A bordo de um paquete estrangeiro, uma vez, em viagem do Cabo da Boa Esperança, peguei n’uma guitarra, e sosinho comecei a repetir uns pobres fadinhos da Mouraria. Pois não pude ir ávante; restitui a guitarra ao dono, e tive de me afastar.»[55]

Palmeirim diz nos Excentricos do meu tempo: «se de longe me chegam aos ouvidos os sons de uma guitarra tocada com sentimento, deixo-me ir atraz d’esses sons aos mundos dos proprios sonhos, agradecido á aragem que m’os trouxe tirando-me por momentos da aridez da vida positiva.»[56]

De mim lhes posso dizer que em 1873, quando cheguei a Lisboa, me causaram profunda impressão os primeiros Fados que ouvi na guitarra, de noite. N’um livrinho escripto muito á pressa logo nos primeiros dias, do que resultou ficar imperfeito e ser incompleto, encontro estas palavras que são o testemunho espontaneo da suggestão recebida: «O fado tem a poesia natural das grandes angustias, a tristeza dos que soffrem desamparados. É o hymno da desgraça, o romance das maguas obscuras, a epopêa do povo. Não ha sentimento doloroso que a linguagem melancolica do fado não reproduza desde a saudade do tombadilho até á afflicção do lupanar. É o pensamento dos que não sabem exprimil-o. Para interpretar o fado nenhum instrumento mais de geito que a guitarra. Está costumada a cantar tristezas desde a mais remota antiguidade, e alem d’isso falla tão baixinho que não chega a incommodar os grandes, os felizes, os opulentos. É quasi uma creança que chora ou uma mulher que suspira. Impressiona e não atordoa. Faz-se ouvir, mas não se impõe.»[57]

Eu, que trazia os ouvidos cheios das alegres canções populares do norte, da Canninha verde, do Malhão, do Vira, deixei-me subjugar pela triste canção do sul e lembro-me ainda—já lá vão quasi trinta annos!—de que tambem compuz a lettra de um Fado, que principiava assim:

Hontem a noite era bella.

Na guitarra um namorado

Tangia sob a janella

Um fado triste e chorado.

Não me lembra o resto, e importa pouco.

Mas, voltando ao ponto, parece que os nossos dois informadores, Palmeirim e Queriol, acabarão por ficar de accôrdo: é que na Severa, como em quasi todas as pessoas de uma sensibilidade doentia, havia duas entidades diversas—a da realidade e a do ideal.