E quando a ella lhe faltava a atmosphera do sonho, que principiava a engrandecel-a, e a embriagal-a; quando queria preparar-se para cantar, sem se encontrar n’um meio suggestivo que a levantasse, recorria ao vinho, diz a tradição; embriagava-se a valer.
As esperas de touros exaltavam-n’a, faziam-n’a delirar. A paixão tauromachica completava a feição bohemia d’aquelle tempo. O Vimioso era um cavalleiro eximio, o primeiro entre todos. A Severa seguia-o fascinada. Então, no calor da noitada, ao luar e ao relento nas Marnotas, a Severa, excitada, cantava Fados gaiatos, cantigas a atirar, ironicas, picantes, contendendo com as outras mulheres menos celebres do que ella.
Uma vez desfechou contra a Joaquina dos Cordões este mote trocista:
Eu já vi n’uma tourada
A Joaquina dos Cordões,
Mal viu dar dois trambolhões,
Ficar logo desmaiada.
O conde de Vimioso affeiçoara-se-lhe, porque reconhecêra na Severa a mais intelligente e espirituosa fadista de Lisboa, a que melhor sabia cantar e bater o Fado.
Mas, ponhamos de parte a lenda, não se deixou arrastar nunca por uma paixão delirante e degradante. Nunca deixou de ser um fidalgo, um gentilhomem; nunca enlouqueceu por amor da Severa. Foi, na primeira sociedade, um bohemio, mas não perdeu nunca a sua linha aristocratica.
Dil-o o sr. Queriol: que o conde, gastronomo saciado de boa cosinha, se deleitava, por extravagancia, saboreando uma sardinha de taberna.