Isso foi um tanto moda entre os fidalgos antigos, e ainda o era no tempo do conde.

N’elle talvez um pouco mais persistentemente do que em outros; mas só isso.

O Diccionario Popular, n’um artigo escripto por Pinheiro Chagas, vem em reforço do sr. Queriol: «O conde de Vimioso era um toureador de primeira ordem, e procurava de preferencia uma sociedade menos propria da sua alta ascendencia, apesar de se apresentar na outra como um verdadeiro fidalgo[58].

Ainda havemos de transcrever passagens do artigo do sr. Queriol, que completarão este juizo.

Talvez que o conde de Vimioso pudesse ter-se apaixonado pela Severa, se conseguisse domal-a, arrancal-a á vida que ella arrastava. Se o fizesse, acabaria por aborrecer-se. Ella, intelligente como era, comprehendia esse perigo, e evitava-o. Faltar-lhe-ia então o prestigio da libertinagem, a nota canalha, mas acirrante, da sua existencia de fadista. Antes «sardinha» toda a vida do que «foie gras» uma hora.

Não ha duvida de que o conde de Vimioso, sem querer descer inteiramente até á Severa, procurou guindal-a até elle, adoptando-a como sua amante.

E houve uma occasião em que ella pareceu disposta a deixar-se escravisar. Chegou a estar guardada por criados do conde durante uma noite. Mas o travesseiro aconselhou-a bem, e ella retomou logo o seu bom-senso, ao accordar.

De manhã veiu para a janella, e respirou a plenos pulmões o ar livre e fresco da rua.

Passavam carroças de lavadeiras, coguladas de trouxas de roupa lavada. A janella era baixa, a Severa pendurou-se do peitoril, deixou-se cair dentro de uma das carroças. Fugiu.

De outra vez, havia-se escapado á vigilancia do conde de Vimioso. Ninguem sabia d’ella, em vão a procuravam por toda a parte. Só ao cabo de muitas pesquizas foram encontral-a n’uma taverna do largo dos Inglezinhos sentada a tocar guitarra no meio de um auditorio compacto.