O photographo ouvia attentamente, com uma curiosidade cheia de pontos de interrogação.
—As condições são dar-me a commissão de vinte por cento em cada um d’esses retratos...
Nos labios do photographo passou rapidamente um movimento de despeito. Litteralmente traduzida, essa crispação quereria dizer: Ah! maroto, que me comeste!
Mas em voz alta:
—Vá feito.
—Espere lá,—continuou o estudante, que havia tres dias estava sem dinheiro—o meu amigo ainda não pensou na possibilidade de ir alguem a Lisboa mandar copiar qualquer d’estes retratos, de modo a poder-se reproduzir um cliché por um preço muito inferior a 1$500 réis o cartão?
—Sim... lá isso... mas a despeza do caminho de ferro?... e o incommodo?... e sobretudo... o ter que ausentar-se da senhorita Soledad, deixando o campo livre ao inimigo!
Esta ultima advertencia do photographo tinha visivelmente por fim ferir a corda sensivel do coração do estudante, que se deu pressa em responder:
—Ora o meu amigo excede na arte de não saber photographar o proprio Marcel das Scenas da vida da bohemia (o livro predilecto do estudante) que tirava retratos aos granadeiros de Pariz com a similhança garantida por um anno. A imagem das suas photographias só pode ser garantida por quinze dias, o maximo. Portanto, d’aqui a oito dias, estes retratos estarão completamente apagados, o meu amigo terá novas encommendas, e eu continuarei a receber a commissão de vinte por cento, com direito a um retrato gratuito.
O photographo transigiu, pactuou. O estudante entregou-lhe os retratos de Soledad, que n’esse mesmo dia foram vendidos aos seus admiradores—pela segunda vez.