Já não havia tertulias possiveis, Soledad passava as noites sentada com a familia n’um banco da Praia, aturando ás vezes D. Ramon, outras vezes o Vianninha ou o tenente Epaminondas ou o alferes Ruivo, mas nada d’isso, que era pouco, podia contentar a sua alma de andaluza: a tertulia, a querida tertulia, que tanto lhe electrisava os nervos, fazia-lhe muita falta.
Abrindo e fechando o abanico, aborrecia-se, chegava a bocejar. Tinha desesperos intimos, raivas surdas.
E, quando passava pela casa das Rodartes, e via luz nas janellas, uma revoltada emulação fazia brilhar, n’um relampago, as pupillas negras dos seus olhos.
—Ao menos as tres irmãs, as Rodartes, entretinham-se ás noites, ao passo que ella, rainha quasi desthronada, só tinha por futuro um banco da Praia e uma côrte cada vez mais reduzida.
Uma vez, com manifesto mau humor, perguntára Soledad ao tenente Epaminondas, ironicamente, se aquillo que havia ás noites em casa das Rodartes eram tertulias.
E o tenente, muito desdenhoso, respondera rindo:
—Quaes tertulias! São os dois alemtejanos que estão a jogar o loto na côrte do Padre Eterno!
Mas Soledad, raivosa, mordera o beiço.