Entretanto, D. Estanislada, Soledad e o grupo dos admiradores da bella andaluza haviam-se encaminhado para o Passeio da praia de Troino. Era convidativo o local, e a grande serenidade do Sado punha no horisonte da paizagem uma vaga doçura inexplicavel.

O sueco sentia-se bem deante do aspecto grandioso das aguas do rio, e do mar que se avistava ao longe. Era, em toda a sua pujança, n’esse momento, um homem do norte, habituado a vêr os grandes rios e os grandes lagos, sem se arripiar de frio, graças ao habito do clima septentrional e... ao kirsch. Como Soledad parasse ao pé do lago para lhe atirar uma pedrinha, que desappareceu descrevendo á superficie da agua ondulações concentricas, o sueco disse-lhe, na sua linguagem arrevesada, que se ella visse o lago Moelar, em Stockholmo, semeado de pequenas ilhas, ficaria verdadeiramente encantada, e baixo, ao ouvido, acrescentou: Senhora poderr irr comiga, se querr casa mim.

Como fosse o sueco quem n’essa tarde parecia ter adiantado terreno, os outros iam despeitados, e alguns, n’um grupo, faziam troça e iam chasqueando das suas calças curtas, das suas grandes botas rugosas, do seu passo de pachiderme, e da sua gaucherie amorosa. O conselheiro Antunes, fallando com D. Estanislada, aconselhava-lhe que para a outra vez se abstivesse do peixe-espada, que na sua opinião era muito reimoso.

Chegados á beira do rio, Soledad sentou-se, poz os olhos na corrente plácida do Sado, e tirou da sua alma de andaluza um suspiro que mandou ao Guadalquivir. Explicou ao sueco que a cidade de Sevilha ficava á margem do Guadalquivir, um bello rio, o mais formoso de todo o mundo! exclamou ella n’uma arrojada hyperbole hespanhola. O sueco sentiu-se ferido na corda do patriotismo, e replicou: Nó! nó! E procurou justificar a negativa citando os principaes rios da Scandinavia, enumerando o Tornea, o Lulea, o Pitea e o Umea. E o estudante, troçando, acrescentou do lado com ruidoso applauso dos circumstantes, e com a rapidez de quem está declinando nomes latinos: E o Gelea, o Gouvea, o Obrea, e o Lamprea.

O sueco fez-se encarnado como uma cereja, sem perceber ao certo senão que estavam rindo d’elle, e Soledad vibrou uma gargalhada sonora como um tinido de crystaes, que se houvessem encontrado na sua garganta.

Era que o estudante de Alcacer estava verdadeiramente desesperado. N’esse mesmo dia em que havia ido comprar um bouquet a uma quinta, a cuja porta um grande cão arremettêra contra elle ladrando encolerisado, n’esse mesmo dia em que com varia fortuna tivera a vantagem de só elle offerecer flores e a contrariedade das iras do cão, via-se preterido pelo sueco.

O estudante procurou desesperadamente no seu espirito uma idéa salvadora, que pudesse restituir-lhe a importancia que visivelmente ia perdendo. Queria a todo o custo deslocar o sueco da bella posição em que se encontrava, e pretendeu despertar na alma de Soledad as tendencias devaneadoras que por vezes se caracterisavam n’uma intermittencia de romanticismo. Propoz um passeio ao oratorio de Mendoliva, um sitio poetico, na encosta da serra de S. Filippe, quasi á beira-mar. Com effeito, o espirito da bella andaluza exaltou-se promptamente. Ella não sabia o que era Mendoliva, nem qual fosse a belleza d’esse local. Mas o seu delicado instincto de mulher e de andaluza adivinhou que se tratava de uma tradição romantica, de uma lenda nacional, e abraçou o alvitre.

O estudante delirou de alegria, julgou-se victorioso.

D. Estanislada perguntou a que distancia ficaria o oratorio. Indicou-lhe a direcção o Vianninha, o rapaz de Setubal, aquelle por quem a Sequeira estava bebendo anti-hysterico todas as noites. O alferes Ruivo e o tenente Epaminondas affirmaram que o sitio era delicioso. Mas o conselheiro Antunes recordou a D. Estanislada o preceito da eschola de Salerno: