Post prandium sta, post cœnam ambula,

e aconselhou-lhe que ficasse, que elle lhe faria companhia, com muito gosto e muita honra—palavras suas—, minha senhora. D. Estanislada acceitou a advertencia—por causa do estomago e de outros orgãos.

Partiu em direcção ao oratorio de Mendoliva o alegre rancho da bella andaluza e dos seus cavalleiros servientes. O caminho, á beira-mar, é em verdade delicioso. O sol, n’uma grande explosão de luz, lançava sobre o mar uma chuva de oiro. Manchas encarnadas, de um colorido á Rubens, punham no horisonte uns tons de purpura, que davam ao sol uma magestade olympica, como as cortinas de um throno asiatico. Chegaram com effeito ao local da antiga ermida de S. Braz, onde em outro tempo um soldado portuguez se elevou em extasis de asceta, havendo trocado a espada pelo habito.

Soledad gostou muito, comprehendeu a vaga poesia que se respirava ali, e pediu ao estudante a lenda do sitio.

Pobre estudante! Viu-se entalado, sem saber como havia de tirar-se d’aquelle mau passo. Concluiu por dizer que o sitio não tinha lenda. Foi um golpe de espada de Alexandre. O alferes Ruivo e o tenente Epaminondas foram da mesma opinião: que o sitio não tinha historia. O proprietario das Alcaçovas acrescentou com uma rudeza brutal que não podia ser assim: que Mendoliva havia por força de dizer alguma coisa. O morgado de Reguengos acudiu em auxilio do patricio, pela honra do Alemtejo: que Mendoliva havia de ter uma significação qualquer. Então o jornalista Aurelio Goes, que se havia conservado calado, com um sorriso de ironia nos labios, poz-se em evidencia: disse que o chronista Ruy de Pina contava que Mendo Gomes de Seabra fôra um cavalleiro do tempo de D. João I, que, mais tarde, já depois do desastre de Tanger, se apartára do mundo ermando ali, e que, passados annos, fundára o mosteiro de Alferrara.

Julio de Lemos, desesperado, apopletico de colera, observou que o jornalista estava confundindo Mendo Gomes de Seabra com D. Nuno Alvares Pereira, que fôra quem depois de ter militado nos exercitos de D. João I resolvêra vestir o habito monastico, e que provavelmente o povo setubalense confundiu os dois individuos na mesma lenda.

Aurelio Goes despeitou-se, e perguntou ao estudante se elle já havia feito exame de historia portugueza. O Lemos respondeu insolentemente: que sim, mas que talvez a tivesse desaprendido lendo os jornaes. O jornalista perguntou se se referia ao jornal de que elle era redactor. E o Lemos, querendo nivelar-se á altura de um Cid campeador perante a bella andaluza, respondeu que não podia referir-se a outro jornal, visto que o seu redactor confundia Mendo Gomes de Seabra com D. Nuno Alvares Pereira. Aurelio Goes ainda avançou para o estudante, mas o proprietario das Alcaçovas deitou-lhe a mão ao braço, como na vespera havia deitado as mãos ás guelas do sueco.

Soledad acompanhou com os seus bellos olhos penetrantes todos os episodios d’este conflicto. Comprehendeu perfeitamente tudo o que se havia passado, e quiz dissipar a nuvem negra que subitamente se formára. Lembrou que o sitio era encantador, que convidava á poesia, e pediu ao estudante que recitasse uns versos. Julio de Lemos desculpou-se, que estava indisposto, que se não lembrava de versos nenhuns. Ella insistiu, com imperiosa meiguice. Que não, que não podia, tornou o estudante. Soledad redobrou de instancias. O estudante, com as faces rubras como papoulas e os olhos congestionados, teve que ceder e começou a recitar, com uma precipitação colerica:

As flores d’alma que se alteiam bellas,