Ricardina mostrou-se resentida, ciumenta, e não quiz dizer n’essa noite a sua ultima palavra de perdão. Era uma tactica habil, para subjugar o sueco, para o obrigar a reconquistar o terreno perdido.

Por dentro dos vidros, ás escuras, Soledad e D. Estanislada tinham vindo, cada uma por sua vez, espreitar para a rua, na esperança de que o sueco voltasse.

Ambas o viram: Soledad surprehendeu-o n’uma attitude comica, a implorar de mãos postas á menina Ricardina que levantasse a vidraça. Ficou indignada, não tanto pela attitude humilhante d’elle, como por ter a certeza de que lhe roubavam... mais um.

D. Estanislada, a quem a filha não fallava desde pela manhã, deixou-a deitar para vir pé-ante-pé espreitar por dentro dos vidros.

Reconheceu facilmente a corpolencia do sueco, dobrado sobre a janella de Ricardina.

—Ai! pensou D. Estanislada, que elle namora a lambisgoia da filha da senhoria! Estou bem arranjada com maus visinhos de ao pé da porta! O melhor é tratar de pôr-me ao fresco, porque eu já fiquei desconfiada quando n’aquella noite, em que cá esteve o conselheiro, a tal menina Ricardina deixou cahir o annel debaixo da meza!

E reflectindo um instante:

—Ai! que foi ella que bateu e gritou á porta!

No dia seguinte, á volta do banho, quiz o acaso que as duas hespanholas encontrassem o sueco. Elle ia para cumprimental-as, quando Soledad, que levava grande dianteira á mãe, lhe disse bruscamente: