«A senhora sua mãe, logo que usted fechou hontem a janella, atirou ao sueco este lenço, que lhe mando. Veja usted que tem dentro das portas a sua primeira rival. Aconselho-a, se quizer evitar um grande escandalo, a que trate de sahir de Setubal».

Ricardina esperou que D. Enrique sahisse de casa, para mandar entregar, pelo mesmo rapasito, as duas cartas, com os lenços dentro.

O expediente surtiu effeito, porque n’essa noite não se abriram as janellas da casa de D. Enrique.

O sueco, ao dar da meia noite, foi, muito timidamente, procurar uma reconciliação com Ricardina.

Viu a janella fechada, mas, perdendo um pouco a timidez, aproximou-se da vidraça: Ricardina estava n’uma posição estudada, com o rosto apoiado na mão direita, olhando para o céo onde a lua passava entre nuvens.

O sueco bateu com os dedos na vidraça, e Ricardina, que lhe seguia disfarçadamente os movimentos, fingiu despertar, sobresaltada, da sua apaixonada réverie. Encarando com o sueco, fez um movimento de desdem, e recahiu em simulada contemplação.

Elle pôz as mãos como supplicando-lhe que levantas-se a vidraça.

Ricardina, mostrando-se contrariada, abriu a janella e perguntou-lhe de repellão:

—O que quer o sr. de mim? Ainda tem cara de me apparecer aqui?!

O sueco desculpou-se: que sim, que tinha cara, porque tinha coração. Que a amava muito. Que na vespera não quizera aproximar-se para a não comprometter. Que não tinha culpa de que as hespanholas—e n’isto teve graça—se lembrassem de fazer d’elle lavadeira, dando-lhe lenços para lavar.