—Alguma traição?!
—Sim, se terão coragem para me deixar só comtigo na Messejana!
—Não pense n’isso, avôsinho.
—Dizes tu que não pense n’isso! Mas em que hei-de eu pensar senão em vocês! Que tenho eu que me prenda agora mais no mundo?! A velhice não me tornou ainda tão tolo, que não perceba o que é um namoro. Lá de que as tuas irmãs são requestadas pelos nossos patricios, já não posso eu duvidar. E não me revolta isso, mas entristece-me. Sempre vos tenho dito que não tenhaes pressa de casar, sobretudo de casar mal, porque estaes habituadas a viver bem; mas não posso levar a minha exigencia até ao ponto de vos querer para freiras. Que anda moiro na costa, é certo, e que os dois nossos patricios são pessoas estimaveis, e maridos convenientes, não é menos certo. Mas o que me entristece é o receio de vêr desfeito de um dia para o outro o nosso pequeno grupo de familia, indo a Hilda para Reguengos e a Maria Ignez para as Alcaçovas. Ficaremos nós, como dois solitarios, no casarão da Messejana. E tu, Salomé, e tu, que noticias me dás do teu coração?...
—Nem o sinto! respondeu, sorrindo, Salomé.
—Pareceu-me que o pateta do Vianninha pretendia fazer-te a côrte...
—Sim... talvez. Perdia o tempo.
—Já anda desilludido, porque apparece menos. Era um mau casamento, porque é sempre um mau casamento aquelle em que se conquista uma supposta felicidade á custa da infelicidade de outrem. O pateta tem feito soffrer a Sequeira, que se apaixonou por elle, e que podia empregar-se melhor. E o ratão do sueco! o que é feito d’elle?
—Creio que andará arrastando a aza á señorita. Não o tenho visto.