D. Estanislada principiou a pensar na conveniencia de sahir de Setubal.
Desde o momento em que uma pessoa d’aquella terra possuia dois dos seus segredos amorosos, conhecia a historia das suas leviandades internacionaes, um pouco serodias, só restava á delinquente fazer ablativo de viagem, para evitar a atoada do ridiculo.
D. Enrique incommodava-a menos que o ridiculo. Não era do marido que receava, mas das más linguas, que n’uma terra pequena ferem mais, porque mordem de perto.
Indignava-a o preconceito social que impõe ao coração humano o dever de esfriar antes de morrer. Segundo as praxes estabelecidas, uma mulher de vinte annos póde ter vinte namoros. Acha-se isso muito natural, e diz-se d’essa mulher com um certo ar de desculpa: «É alegre». Mas se uma mulher de quarenta annos tiver dois namoros, toda a gente a censura, e a opinião publica não faz senão gritar por toda a parte: «É devassa».
Ora a boa logica ensina que a mulher de quarenta annos tem menos tempo para viver do que a mulher de vinte. Rasão é esta para aproveitar o tempo, para se despedir da vida, que já não póde ser longa.
A propria natureza intercallou o dia natural, que é um symbolo da existencia humana, entre dois crepusculos, o da manhã e o da tarde. Porque ha de pois ser negado ao coração o direito de ter dois momentos de brilho e de calor, dois crepusculos amorosos, que abram e fechem a existencia?
D. Estanislada achava profundamente odiosa e absurda a fiscalisação que a sociedade exerce com a mulher casada. Se o marido não vê ou não quer vêr, para que ha de a bisbilhotice malevola emprestar-lhe os oculos da moralidade?
D. Enrique não era um Othello, nunca o fôra. Se lhe dissessem alguma coisa em desabono da esposa, encolheria desdenhosamente os hombros, limitar-se-ia certamente a dizer: Es una broma!