Com que direito vinha a menina Ricardina substituir-se a D. Enrique para o effeito da moralidade?!

Então D. Estanislada havia casado com D. Enrique, e era a menina Ricardina quem fiscalisava, sem procuração de D. Enrique, a fidelidade conjugal de D. Estanislada!

De mais a mais, a menina Ricardina podia esperar que a mãe se deitasse, para vir á janella conversar com um homem, e a D. Estanislada não era permittido que, estando o marido a dormir, fizesse exactamente a mesma coisa?!

Em conclusão: D. Estanislada achava o mundo mal organisado, e estava disposta, não a concertal-o, mas a illudil-o.

Ora desde que a menina Ricardina, má visinha de ao pé da porta, sabia tudo, era impossivel illudil-a: convinha, portanto, ir tentar melhor fortuna n’outra região onde a illusão podesse florescer mais desafogada d’espiões.

Pensando na resolução de todos estes problemas, que de perto a interessavam, e reconhecida a impossibilidade de regressar desde logo a Hespanha, cujo estado politico continuava a ser o mesmo, D. Estanislada lembrou-se, com certa saudade, do conselheiro Antunes.

Elle amara-a, déra-lhe provas d’isso; só tinha o defeito de ser, como todos os portuguezes, na opinião de D. Estanislada, muito timido. Mas sendo timidos os portuguezes, sendo esse o seu natural, não havia encontral-os melhores. E, timidez por timidez, o conselheiro já estava experimentado, gostava d’ella.

O mesmo foi lembrar-lhe o conselheiro e, como ideia associada, Santarem, onde elle vivia.

Fez pois tenção de aconselhar o marido a sahir de Setubal, cidade insipida, que mais insipida ficaria ainda depois de encerrada a estação balnear.