Não consultou, sobre este projecto, Soledad, que, como já n’outras occasiões tinha acontecido, andava amuada com a mãe. Tambem Soledad parecia rezar ás vezes pela cartilha da sociedade, e resentir-se de que a mãe não sacrificasse em sua honra os ultimos clarões da belleza que declinava.

Não era porque Soledad amasse o sueco. Mas o seu brio de hespanhola revoltava-se contra a ideia de que todos pretendessem roubar-lhe admiradores, até sua propria mãe.

Soledad olhava para o abanico, que com tanto salero requebrava, e parecia-lhe que era como que uma espada partida na mão de um conquistador.

Cuidava ouvir dizer-lhe o abanico:

—Soledad, flôr da Andaluzia, tanto me tens incommodado, abrindo-me e fechando-me, fazendo-me bailar na tua mão nervosa, como n’um bolero sem fim, e o que tens tu, bella Soledad, conseguido com isso? Os teus admiradores vão desertando uns após outros; tu, que a principio timbraste em mostrar-te altiva e incomprehensivel, porque te imaginavas inegualavel, tens visto fazer-se em roda de ti a solidão das realezas decahidas, a solidão da ilha de Santa Helena, onde se abateu o maior orgulho humano. As Rodartes foram mais felizes do que tu, e comtudo não dispõem dos teus recursos de hespanhola, do salero e do abanico, dois irmãos gemeos, que fazemos estremecer os corações. Os leques de que ellas usam foram comprados alli na Praça do Bocage, na loja do Trindade, e são semsaborões como todos os leques portuguezes, ao passo que eu, apesar de haver uma republica hespanhola, continuo a ser o rei das Hespanhas,—a alma do Cid recortada sobre uma folha de papel. Até a Ricardina te roubou o sueco: és, pobre de ti! como o leão moribundo, a quem as Ricardinas injuriam. Desperta, altiva flôr da Andaluzia, readquire o teu orgulho de raça, volta as costas a este mundo prosaico, onde só parece haver sal nas marinhas, e vai procurar n’outra parte os triumphos, as homenagens a que a tua belleza te dá direito.

Soledad ouviu o abanico e deu-lhe credito, como todas as hespanholas. Por isso, quando D. Enrique, já meio convencido por D. Estanislada, fallou um dia em transferirem-se para Santarem, Soledad pareceu apoiar esse projecto, que lhe promettia uma vida mais alegre do que a de Setubal.

O Marcolino, marcador do café Esperança, perguntou a D. Enrique se queria ficar com um bilhete para a rifa da coroa de louros.

E o hespanhol, muito desdenhoso, respondeu-lhe que não, porque se iba a marchar.

—Para Hespanha? insistiu o marcador.

D. Enrique zangou-se: que para Hespanha só voltaria com a realeza dos Bourbons.