—Vá para onde ellas forem. O que lhe importa o negocio do sal? Mais vale um gosto na vida que seis vintens na algibeira.

—Nó! Nó! respondia o sueco com uma bonhomia babosa.

Elle já estava habituado a que Ricardina o tratasse por tu, tratamento carinhoso, que nunca mais havia recebido desde que sahira da Scandinavia, e todo o seu ideal consistia agora em conseguir que ella voltasse a empregar esse terno vocativo.

Mas Ricardina, muito arteira, obstinava-se em tratal-o por senhor, sem o repellir, é certo, mas sem o acarinhar como antes d’aquella fatal noite dos dois lenços.

Um namorado meridional haveria, decerto, feito uma scena de ciumes, diria a Ricardina que, pois que ella assim o aconselhava, seguiria as Saavedras para onde quer que ellas fossem, mas um homem do norte, muito calmo, muito pacifico, não encontra no seu temperamento a facilidade de representar no amor o drama tempestuoso.

Quando o sueco se despedia de Ricardina, beijando-lhe outra vez as mãos, ia resignado a esperar que o diluvio passasse e que o arco da alliança brilhasse sobre os ultimos destroços do diluvio.

Depois, chegando ao hotel Escoveiro, dois copinhos de Kirsch-wasser adormeciam-n’o n’uma serena esperança de que Ricardina voltaria a ser a mesma.

E, por entre os fumos do Kirsch e do cachimbo, pensava elle:

—Que voltas que o mundo dá! Quem me havia de dizer a mim que estimaria ainda a ausencia de Soledad!

E o cachimbo ia-se apagando, e o sueco adormecia tranquillamente...