No café Esperança commentava-se esta subita retirada da familia Saavedra, e attribuia-se a duas causas principaes: a attracção que, de Santarem, o conselheiro Antunes exercia no coração de D. Estanislada, e a emulação de Soledad pela concorrencia das Rodartes no amor.

A blague não poupava D. Enrique, que, segundo se dizia, ia metter-se na boca do lobo: o lobo era, n’este caso, o conselheiro Antunes.

Quanto ás Rodartes, a opinião publica elogiava-as pela modestia com que se apresentavam: se ellas tinham prejudicado o prestigio de Soledad, não era porque houvessem concorrido acintosamente para isso.

Fôra uma serie de fatalidades imprevistas que apeiára Soledad do pedestal em que nos primeiros tempos se enthronisou. Todos os grandes imperios desabam, segundo a lei fatal da Historia: Soledad teve a mesma sorte dos grandes imperios.

Era certo, já toda a gente o sabia, que o morgado de Reguengos e o proprietario das Alcaçovas estavam namorados de Hilda e Maria Ignez, mas não fôra porque ellas os disputassem encarniçadamente a Soledad, nem porque se salientassem em garridices espectaculosas.

O Padre Eterno, como geralmente se chamava a Araujo Rodarte, era um velho sympathico, que a opinião publica respeitava, e mais ainda o respeitou, quando se tornou conhecido um facto em que o seu nome se achou envolvido.

O Sequeira, negociante, fôra visitar o Rodarte e descrevera-lhe, com lagrimas nos olhos, o estado da filha, cuja vida perigava, porque a infeliz menina, apaixonada pelo Vianninha, passava dias encerrada no seu quarto, chorando, sem querer vêr ninguem.

Commoveu-se o velho Rodarte da angustia de um pae, cujo coração a dôr dilacerava.

—Mas, dissera Araujo Rodarte ao Sequeira, porque não procura ter uma conferencia com o Vianninha, a fim de que elle cabalmente se explique sobre as suas intenções?