—Não posso, sr. Rodarte, respondera-lhe o Sequeira. Não posso. É superior ás minhas forças o ter que pedir a um homem que corresponda ao amor de minha filha, sobretudo quando esse homem se deveria julgar muito feliz em desposal-a.
Araujo Rodarte ficou pensativo durante alguns momentos, e disse depois:
—Tem rasão, sr. Sequeira. Mas eu acho que o Vianninha não é senão um doidivanas, que gosta de se divertir sem criterio. Succede isso a muitos moços. São raros até os que pensam de outro modo.
—Depois que veiu para ahi essa maldita hespanhola foi que elle, suciando com o Lemos e com o tal jornalista de Lisboa, principiou a despresar a minha filha.
—A hespanhola, sr. Sequeira, não tem culpa de ser bonita, nem de haver sido educada á maneira do seu paiz. Sabe v. s.ª perfeitamente que os costumes hespanhoes dão maior liberdade á mulher do que entre nós. Se uma menina portugueza andasse constantemente seguida por um cortejo de admiradores, seria isso reparado e censurado. Mas em Hespanha vive-se muito ao ar livre, na rua, e são admittidas liberdades que em grande parte resultam d’esse teor de vida. Olhe, eu, quando aqui cheguei, condescendi em ir a um pic-nic, porque julguei que seria essa uma festa tão pacata como as do meu Alemtejo. Quando lá me vi, arrependi-me muito de ter acceitado o convite, e arrependi-me, sobretudo, porque, além das minhas netas, apenas havia duas senhoras, a mulher e a filha de D. Enrique, cujos habitos de educação brigavam naturalmente com os de tres pobres meninas nadas e creadas, longe da sociedade, n’um canto do Alemtejo. Fiz logo tenção de me afastar o mais que podesse, não por falta de confiança em minhas netas, mas para evitar que ellas andassem nas bôccas do mundo. Este meu procedimento não foi ditado por orgulho ou por qualquer outro sentimento de altivez pessoal. Foi prudencia, foi experiencia do mundo... Mas vamos ao caso do Vianninha. Acho justas as rasões pelas quaes o sr. Sequeira não quer ter explicações com elle. Comtudo, se a isso me auctorisa, e se isso deseja, poderei eu tel-as.
—Ó sr. Rodarte! grande favor me faria encarregando-se d’essa missão, procurando salvar minha filha de uma vida tormentosa, a que a morte porá termo em breve, certamente.
Afogaram-se em lagrimas os olhos do Sequeira, e nos olhos de Araujo Rodarte tambem passaram lagrimas.
Despediram-se os dois cordealmente.
Araujo Rodarte, não querendo dar a saber a Salomé o motivo d’aquella entrevista que tivera com o Sequeira, mandou recado ao seu banheiro para que lhe fosse fallar. Não podendo escrever elle proprio, quiz evitar que Salomé tivesse de escrever ao Vianninha solicitando uma audiencia para o avô.
Pelo banheiro mandou Araujo Rodarte dizer ao Vianninha que esperava dever-lhe o obsequio de lhe dispensar dois momentos de attenção.