XVIII

O namoro dos dois alemtejanos com as irmãs Rodartes não era um d’esses galanteios romanticos, que obriga a excessos de lyrismo.

Se o fosse, dar-me-ia ensejo a descrever serenatas de mandolim, arroubos de Romeu debaixo da varanda de Julietta,—tudo em duplicado, os Romeus e as Juliettas, ficando apenas no singular a varanda, que era a mesma.

Homens novos, posto já orçassem pelos trinta annos ambos elles, fortes, alegres, de physionomia agradavel e costumes chãos, o morgado de Reguengos e o proprietario das Alcaçovas estavam longe de poder ser dois pagens namorados, com todas as pieguices concomitantes á poesia do amor medieval.

O temperamento, mais talvez do que a edade, e não pouco a educação, contribuiam para furtal-os ás cegueiras da exaltação amorosa.

Não eram frios, nem o podiam ser, porque tinham bom sangue, como a maior parte dos alemtejanos, se exceptuarmos os que vivem nas regiões atormentadas pelas febres palustres. Mas eram serenos; homens em quem os musculos, saudavelmente desenvolvidos, subjugavam os nervos. Possuiam essa alegria moderada que provém da robustez, da constituição sadia. Não tinham por isso as phantasias melancolicas dos nevroticos, nem a irritabilidade azeda dos biliosos. Bom coração, bom estomago, bom figado: com estes predicados, e com as suas herdades, viviam felizes.

Não pensavam em S. Carlos e muito menos em Pariz; mas nem S. Carlos nem Pariz lhes repugnavam... para uma vez.