Entendiam menos de francez que de cortiça, mais de porcos que de tenores, mas não eram selvagens ao ponto de não querer jámais vêr a França, nem ouvir nunca uma opera.

De manhã cedo montavam a cavallo, percorriam as suas herdades, davam instrucções aos feitores, e regressavam a casa com bom apetite e boa alegria. Raras vezes se queixavam de um incommodo. Dos dois, apenas o morgado de Reguengos tinha azias de quando em quando, mas uma colhér de bicarbonato de soda curava-o rapidamente. Uma hora depois estava habilitado a comer.

A provincia do Alemtejo tem sido pouco explorada no romance, talvez porque os seus costumes são essencialmente pacatos, algo monotonos.

O sangue arabe, que os alemtejanos herdaram, enrijeceu-lhes o organismo, deu-lhes a saude, mas, já modificado pela transmissão de gerações successivas, não referve em éstos como os que incendiavam as veias dos guerreiros d’Agar.

Nos costumes, em que a dominação sarracena influiu poderosamente, uma serenidade, ás vezes monotona, como se nota nas danças e nas canções populares, accentua-se com evidencia.

A falta de paisagem poderá explicar a falta de bucolismo no amor. Os rios pittorescos do Minho, orlados de salgueiros e matisados de insuas verdejantes, fazem poetas. No Alemtejo, a vegetação ganha em utilidade agricola o que perde em pittoresco de pintura. Mas ha excepções, como sempre acontece: Bernardim Ribeiro, o mavioso bucolico, nasceu ao que parece na villa do Torrão, que é Alemtejo arido. Todavia as excepções não invalidam a regra geral, antes a confirmam.

Mas, em compensação, a vida da provincia transtagana é laboriosa, util e pratica.

Os seus habitantes não téem esse aspecto atormentado, contrahido, que um francez habil me dizia notar na maior parte dos retratos portuguezes.

Ora eu estou certamente condemnado a naufragar no tepôr do assumpto, o amor entre alemtejanos, que sabe a capilé morno.