Mas copío a verdade, e não quero adulteral-a com mixordias de pura phantasia, como os taberneiros fazem ao vinho, e certos romancistas á verdade.
O morgado de Reguengos e o proprietario das Alcaçovas amavam como quem eram. Em pleno galanteio vimol-os ir a Lisboa umas vezes por outras tratar negocios, receber as prestações da venda da cortiça, vender cevados aos salchicheiros da Baixa.
E quando regressavam a Setubal, com o dinheiro a cantar nas algibeiras, sabia-lhes bem a suave familiaridade da casa das Rodartes, onde, antes de abancarem a jogar o loto com as netas, contavam ao avô, francamente, o resultado das suas transacções em Lisboa.
E as duas meninas, que se foram affeiçoando lentamente a elles, porque encontraram dois homens cujo typo conheciam, pois que era o da sua provincia, as duas meninas ouviam-n’os fallar de cevados, entendiam-n’os.
Horror! gritará a leitora alfacinha.
Pois minha senhora, nada e creada na patria de Ulysses, perdoe V. Ex.ª o horror da verdade. Tanto a formosa Hilda, como Maria Ignez, como, principalmente, Salomé, que era o braço direito do avô, sabiam a cotação das cabeças suinas, e conheciam todos os processos da engorda dos cevados.
Isto póde não ser poetico, mas é portuguez de boa lei, portuguez do Alemtejo, onde a azinheira produz a boléta, que é riqueza.
Nem Hilda, que gostava de cantar, sabia trechos das operas de S. Carlos, nem das operetas da Trindade. A sua canção predilecta era a Ceifeira de Palmeirim, poeta genuinamente nacional, que ha quarenta annos se vulgarisou tanto no norte como no sul do paiz.
O rythmo da canção era dolente como o de toda a musica popular do Alemtejo, mas lá gostavam de ouvir Hilda soluçar, como um Fado, as trovas do poeta:
Ha quem diga por inveja