Que és feia por ser trigueira;

Dizem as damas da côrte,

Deixal-as dizer, ceifeira.

As ceifeiras da Messejana, quando á noite voltavam dos campos, queimadas pelo sol, morriam por ouvil-a cantar a canção que tanto as lisonjeava, porque fallava d’ellas, e pediam-lhe que a repetisse.

Araujo Rodarte intervinha com o seu bom humor patriarchal n’esses serões agricolas do Alemtejo, em que a neta, sentada nas escadas de pedra do palacete, cantava para ser ouvida pelas ceifeiras e pelos Ratinhos, que descançavam ao luar.

O bom velho tinha sempre uma graça para dizer ás raparigas.

Uma vez, por exemplo, tendo a neta acabado de cantar, disse elle:

—Sabem vocês, rapazes e raparigas, de quem é esta poesia que a minha Hilda vos cantou agora?

—Não sabemos, senhor.

—Pois é de um poeta de Lisboa, que se chama Palmeirim. E não fez só poesias que as meninas cantem; tambem fez algumas que servem para os velhos cantar.