Algumas vezes, em pleno sol, ouvia-se cantar nos campos, que a foice dos trabalhadores ia deixando reduzidos á seccura do restolho:
Ha quem diga por inveja
Que és feia por ser trigueira;
Dizem as damas da côrte,
Deixal-as dizer, ceifeira.
—Olha os teus discipulos, dizia Araujo Rodarte a Hilda, como honram a professora! Ainda não houve prima-donna de S. Carlos que fizesse escola como tu.
Hilda e as irmãs ouviam fallar de S. Carlos como a gente ouve fallar de um paiz longinquo. O proprio Rodarte, que fallava de S. Carlos, conhecia-o pouco. Quando alguma vez viera da Messejana a Lisboa, aconteceu ir ouvir uma ou outra opera, sobretudo se a opera era do velho Bellini, que toda a gente d’esse tempo preconisava por ser, especialmente, o auctor da Norma.
D’uma dessas raras vezes aconteceu-lhe até uma ratice, que Araujo Rodarte sempre contava rindo.
Annunciava-se a Norma, e elle não resistiu ao cartaz. Mandou comprar a S. Carlos um bilhete da geral. Á noite dirigiu-se para o theatro, cuidando que ia ouvir o grande Bellini. Pois não ouviu ninguem! O theatro estava aberto, mas a platéa vazia. No salão havia grupos commentando um caso extraordinario. Adalgiza fôra raptada pela famosa Sociedade do delirio. Dizia-se que o marquez de Niza, disfarçado em cocheiro, fizera voar os cavallos da carruagem em que Adalgiza entrou, ao descer do hotel. O que é certo é que a cantora não chegou a S. Carlos, pelo menos n’aquella noite, e que fôra visto passar ao Campo Grande, n’uma batida doida, um coupé, ladeado por dois cavalleiros que o guardavam.