Era a Sociedade do delirio, que praticára mais uma das suas proezas,—o rapto d’uma italiana, que talvez fosse sabina.
Nenhum dos dois alemtejanos, o morgado de Reguengos e o proprietario das Alcaçovas, fez o que em amor se chama uma declaração. Esse doce e embaraçoso momento, em que o maior orador do mundo póde sentir-se entaramellado, momento de vibração nervosa e de exaltada sensibilidade, não o passaram elles. O namoro foi derivando suavemente n’uma intimidade agradavel, no trato familiar de todos os dias, e no loto de todas as noites.
As duas Rodartes sabiam-se amadas, não porque elles lh’o confessassem, mas porque as mulheres sabem mais, em materia de amor, pelo que adivinham que pelo que lhes dizem.
Salomé contára ás irmãs as referencias que o avô, certa manhã na praia, fizera ao namoro dos alemtejanos, e o receio que mostrára de que elles o obrigassem a separar-se das duas netas.
Estou certo, sem comtudo poder affirmal-o, que, ouvindo isto, Hilda e Maria Ignez tiveram ambas o mesmo pensamento:
—Pois esteja o avôsinho socegado que, se nós casarmos, não o abandonaremos nunca.
E tambem me quer parecer que Araujo Rodarte, muito intencionalmente, fallára n’esse assumpto a Salomé, para que ella fosse contar ás irmãs o que o avô lhe estivera dizendo e para que Hilda e Maria Ignez o dissessem aos dois alemtejanos, quando fosse occasião.