Fôra n’uma d’essas sahidas que ella annos antes ouvira, á queima-roupa, a declaração de um rapaz banhista, que chegára primeiro que a familia para arrendar casa, e o qual, depois de estabelecidas relações de intimidade entre as senhorias e os inquilinos, gostava muito de pisar-lhe o pé debaixo da mesa do chá.
Logo que D. Enrique entregou a chave, a menina Ricardina foi, por ordem da mãe, verificar o estado em que a familia Saavedra havia deixado ficar a casa.
—Que porcaria! dizia mentalmente a menina Ricardina abrindo as janellas e olhando de relance para o pavimento e para os moveis.
Pelo chão, por cima das mezas, havia bocados de papel, migalhas de pão, ganchos do cabello, e a um canto uma ruma de jornaes hespanhoes e um leque velho, rasgado, com as varetas quebradas e pendentes.
Feito o primeiro exame à vol d’oiseau, Ricardina abriu as gavetas de alguns moveis, sem nada encontrar. Mas já lhe não aconteceu o mesmo quando passava revista á gaveta do lavatorio. Encontrou ahi um pequeno embrulho de papel, que lhe despertou a curiosidade.
Desembrulhou o papel, e encontrou uma caixinha oblonga, de cartão verde.
—O que será isto?! pensava Ricardina.
Abriu, com muito interesse, e viu uma dentadura postiça, nova em folha.
Largou a rir do achado, que estava longe de esperar.