Passada a primeira surpreza, começou a reflectir:
—Para qual dos tres seria isto?
E, parada no meio da casa, com a caixinha de cartão deante dos olhos, continuou a pensar:
—Não, de Soledad não é, porque os seus dentes eram muito mais pequenos. De D. Enrique tambem não é, porque tinha os dentes estragados pelo tabaco. Ah! já sei!...—e largou a rir ás gargalhadas.—Os dentes de D. Estanislada eram bonitos, brancos como o marfim, mas postiços. Agora é que eu sei que eram postiços! Ora a velha tonta! E não saber eu isto antes! Foi dentadura que comprou em Lisboa.—Ricardina ia lendo a inscripção da tampa da caixa—para a ter de sobreselente, talvez por ser mais barata ou melhor do que a que trazia.
E continuou a rir, a rir.
—Quando faria ella tenção de mudar de dentes! pensava Ricardina. Algum d’estes ha-de ser o do siso, que bem preciso lhe é!
E, tendo posto a caixinha no mesmo sitio em que estava, foi contar á mãe a alegre historia do seu achado.
—Que eram fraquezas da humanidade, disse a sr.ª Magdalena; que se não risse; que não offendesse o Senhor Jesus do Bomfim, que lhes havia feito o milagre.
Ricardina respondeu que o Senhor do Bomfim não se podia offender de que ella risse dos dentes postiços de D. Estanislada; que uma coisa não tinha nada com a outra.
A primeira pessoa a quem Ricardina contou a historia da dentadura foi o mesmo rapazito, que tinha levado as duas cartas com os dois lenços a casa de D. Enrique.