O que não passou pela cabeça de Araujo Rodarte, nem os dois alemtejanos ousaram dizer-lhe, é que D. Estanislada tambem havia entrado no sorteio.

—Mas a minha Salomé? a minha Salomé a quem coube em sorte?

—Ao Vianninha.

—Pobre Salomé! disse Araujo Rodarte, rindo. Essa fica sem noivo. Vejam lá os srs.! Lembrei-me primeiro da hespanhola que da minha Salomé! Como é o meu braço direito, não me lembro nunca de que ella póde casar um dia! Nem quero lembrar!

Não se soube logo no café Esperança que as duas Rodartes iam casar. Os dois alemtejanos não eram pessoas que divulgassem a sua felicidade. Mas quando se soube, o alferes Ruivo, sempre alegre, propôz que se abrisse uma garrafa de vinho do Porto, para saudar mais uma vez a victoria de Portugal sobre a Hespanha.

—Meus senhores, disse elle de copo em punho, vamos ter um novo 1640, sem revolução e sem Miguel de Vasconcellos. A Hespanha entrou arrogante em Setubal, escravisou os corações portuguezes, tratou-os como vencidos, opprimiu-os. Mas o sentimento da independencia da patria póde mais que o jugo da belleza. A Hespanha foi derrotada, o leão de Castella teve de retirar sobre Santarem, protegido pela Junta Geral d’aquelle districto, que merece se lance na acta um voto de censura em nome da patria offendida. (Hilaridade geral.) Ficou triumphante a belleza de Portugal, sem precisar para isso recorrer á tertulia, ao abanico, nem aos dentes postiços da mamã. (Alguns dos «habitués» do café Esperança choravam de riso). Peço-lhes pois que, em nome da alma nacional, e em homenagem á provincia a que Setubal pertence geographicamente, repitam com sincero enthusiasmo as palavras que eu vou dizer.

E fez uma longa pausa.

—Então?

—Venham de lá as taes palavras!

—Vem ou não vem?