O pae, o sr. D. Enrique Saavedra, havia collocado uma somma importante n’um Banco inglez. Era um industrial acreditado, e teve o bom senso de fechar as suas fabricas mal que soaram os primeiros rugidos da insurreição cantonal. Se não tivesse procedido assim, haveria decerto succumbido ás mãos dos seus proprios operarios. Em politica, era francamente monarchico; principalmente, partidario dos Bourbons. «Qué broma! dizia-me elle, D. Izabel está exilada. Mas ou a revolução aniquila de vez a Hespanha, ou a Hespanha ainda chamará a rainha». Com effeito, em pouco se enganou D. Enrique: um filho de Isabel II occupou o throno de S. Fernando. Os Bourbons voltaram.

Quem se não importava grandemente com os acontecimentos politicos de Hespanha, era sua filha, Soledad, a mais salerosa individualidade de mulher que é dado phantasiar na vaga idealisação de uma noite de serenata.

Bocage, quando do alto do seu monumento a viu, estremeceu.

Setubal ficou encantada, não obstante ter-se iberisado então pelas relações commerciaes que mantinha com a colonia dos emigrados. E digo commerciaes, porque os hespanhoes eram os primeiros a queixar-se que só tratassem com elles os setubalenses nas transacções ordinarias da vida: dá cá, toma lá. De resto os emigrados entretinham-se uns com os outros, com duas ou tres pessoas da terra, e com as que eram de fóra.

O ideal de Soledad era uma tertulia ou, como hoje dizemos á franceza, uma soirée. Por muito tempo procurou desesperadamente uma tertulia, e se alguma vez ouvia tocar piano, parava de subito, attentava o ouvido e, com uma graça vivaz, picante, exclamava: Qué! És una tertulia? Era apenas um piano que tertuliava uma valsa... platonicamente.

Chegára o verão, começaram a apparecer os banhistas, muita gente do Alemtejo. Ao fim da tarde sentavam-se na praia, olhando para o mar, e ou fallavam dos seus montados e das suas courellas, ou descahiam em somnolencia mazomba. Alguns d’elles, de faces rosaceas, abdomen enxundioso, e instinctos retemperados pela bella fibra suina tinham exclamações carnaes quando a hespanhola passava, e digo a hespanhola, porque era assim que toda a gente fallava d’ella, sem embargo de que n’esse momento outras muitas estivessem em Setubal. Era, porém, como se se dissesse: a bella hespanhola, a formosa por excellencia.

Das pessoas da terra foram poucas as que romperam com a tradição local de retraimento bisonho, arrastadas pela fascinação. E essas poucas, eram homens. As senhoras visitavam-se então em Setubal difficilmente, e esta difficuldade augmentava para com os estrangeiros, cuja procedencia era quasi impossivel esquadrinhar, a não se fazer obra pelas informações dos seus patricios, suspeitas para o caso.

Um dia, porém, Soledad comprehendeu que os seus olhos podiam, elles mesmos, em toda a parte, improvisar uma tertulia; que no seu sorriso alegre e resplendente de andaluza havia encantos de sobra para fazer conhecidos e namorados, e desde esse momento ella zombou poderosamente da semsaboria setubalense, trazendo comsigo, a toda a hora, de manhã ou á noite, uma tertulia completa, attrahida pelo iman da sua formosura, rebocada pela sua fascinação iberica. Era a sua côrte, a sua coterie, o seu séquito. Por accordo tacito, conferiu-se-lhe o sceptro das Hespanhas, que a princeza de la Cisterna havia deposto. Vassalos enthusiastas rodeavam-n’a como nunca os tivera a rainha Maria Victoria. Cada dia que passava trazia um novo alliado. Alguem que vinha a Lisboa, dizia: «Que bella hespanhola que está em Setubal!»—«O que?!» perguntavam no Chiado.—«Unica! incomparavel! sublime!» era a replica. Os curiosos iam, e ficavam. Creio que os generos alimenticios chegaram a encarecer em Setubal. Mas o que embarateceu foi a poesia. N’aquelle tempo, ainda o verso era o vehiculo do amor, e com razão se julgava que para uma mulher de um paiz ardente não havia para inflammar-lhe a phantasia como uma metralha de alexandrinos.

Em redor da bella andaluza, fallava-se um hespanhol mascavado, que ás vezes parecia ser-lhe ainda de mais difficil comprehensão do que o vasconço o é para o commum dos hespanhoes. Mas que se importava Soledad com as palavras? Ella já sabia o que lhe diziam, o que por força se havia de dizer ao pé d’ella: que a amavam. Sorria, e respondia com os olhos, augmentando a fascinação, sem se comprometter: este segredo que só os olhos das hespanholas possuem. As portuguezas, com habitarem a mesma peninsula e serem da mesma raça, affirmam ou negam com os olhos, compromettem-se pelo olhar. Os olhos das hespanholas fallam sempre, mas raras vezes para affirmar ou negar. A duvida atiça o amor, e ella espalhava a duvida com o olhar. Não era bem prometter, não era bem recusar, seria tudo isso talvez, ou, ainda melhor, nada d’isso seria. Semeava esperanças, atirava flores e olhares ao acaso, emquanto o pae fallava dos assassinatos de Montilla, dos incendios de Alcoy e dos sacrilegios de Barcelona, e emquanto a mãe, que se morria por peixe, e era ainda arrebitada, ia por ali fóra, deixando vêr no sorriso uns dentes alvissimos, marchando com um desembaraço verdadeiramente hespanhol, em direcção á Ribeira, para comprar um safio ou uma corvina. Assim mesmo é que era; sem ficelles realistas, pela minha parte.—Ah! ditoso safio! ah! venturosa corvina! diziam muitos, que não podendo occupar o coração de Soledad, se contentariam com achar logar no seu estomago. Eu nunca fui d’esta opinião; não pelo acto em si mesmo, mas pelas consequencias. Todavia ha paladares para tudo...

Alguns entendiam que o melhor modo de conquistar a filha era captivar a mãe—pela bocca. Offereciam-lhe carregações de peixe-espada, cardumes de salmonetes, cabazes de laranjas—e então aquellas laranjas, as de Setubal! Um adorador setubalense mandou-lhe de uma vez um presente de sal, que chegava bem para salgar uma geração inteira. Outro attaché, lisboeta, riu do caso, fazendo notar que quem possuia uma filha assim tinha mais sal do que todas as marinhas do Sado.