Para brindar Soledad, os seus admiradores iam colhêr as melhores flores das quintas de Brancannes, que dispunham em graciosos bouquets e lindas corbeilles, recorrendo ao velho estratagema amoroso de esconder entre as flores uns versos ou uma carta, se bem que ella parecesse ás vezes gostar muito mais de laranjas que de flores.

O proprio D. Enrique era obsequiado com garrafas de excellente moscatel, e seja dito em abono da verdade que o moscatel de Setubal parecia ter o condão de lhe aligeirar os desgostos causados pelas desgraças da patria.

De dia para dia se tornava cada vez mais numerosa e obsequiadora a côrte em que a bella andaluza era rainha absoluta, omnipotente. Soledad sabia, como ninguem mais, conservar a illusão, a duvida ao mesmo passo cruel e deleitosa, que traz suspensos os namorados entre a esperança e o desalento. Não se deixava comprehender: esse era o seu grande segredo. A maior desgraça que póde acontecer a uma mulher é o ser comprehendida por todos. Umas vezes, parecia enlevada em extasis romanticos, tinha vagas abstracções, o seu olhar pairava no azul luminoso da noite. Que bella es la luna! dizia. Dos seus labios adejava um suspiro, que era impossivel interpretar. Outras vezes, quando lhe faziam notar a belleza da lua, ria com desdem petulante, replicando que já estava enfastiada de ouvir fallar da lua de Portugal e da revolução de Hespanha.

Emquanto uns fallavam a Soledad, vogando na ondulação das suas esperanças, ora afagadas, ora combatidas, D. Estanislada, a mãe, discorria a proposito do peixe-espada que tinha comido ao jantar com salada de alface e azeitonas, e D. Enrique discursava sobre a queda dos Bourbons ou sobre a frasqueira do sr. Fonseca, de Azeitão.

Eu não posso dizer quantos e quaes fossem os satellites de Soledad a esse tempo. Eram muitos. Citarei apenas os que me forem lembrando. Um jornalista de Lisboa, o Goes, que mandava mais versos do que laranjas, e um morgado de Reguengos, que mandava mais laranjas do que versos. Um proprietario das Alcaçovas que se atirava ao coração de Soledad com sorrisos e presuntos. Um rapaz de Setubal, o Vianninha, que recorria ao auxilio das flôres, e que deixára pela bella hespanhola uma menina da terra, a Sequeira, que estava padecendo horriveis hysterismos por se vêr abandonada. O conselheiro Antunes, de Santarem, pessoa grave e dinheirosa, que se dirigia principalmente á mãe, não se sabia se para ficar por ahi, se como ponto de partida para se aproximar da filha. Um morrinhento hespanholito, tambem emigrado, D. Ramon Mendoza, que recitava versos como quem está a solfejar cantochão. O alferes Ruivo e o tenente Epaminondas, de caçadores 1. Um sueco, que estava ali a negocio: alto, louro, rosado e inintelligivel. Um marialva do Chiado, que fôra a uma corrida de touros, e não se demorára menos de quinze dias. Um estudante de Alcacer, Julio de Lemos, que tinha ido a férias, e não chegára a casa. Mas, francamente, é-me completamente impossivel enumerar todos os cortezãos da bella andaluza, tanto mais que todos os dias pareciam multiplicar-se como as cabeças da hydra de Lerna e os algarismos da divida fluctuante.

Em face de tão numeroso cortejo, terá decerto perguntado já o leitor a si proprio como é que elles podiam conviver uns com os outros, sem desatar á descompostura e ao murro. A todos os trazia illudidos a esperança, como a duzentos candidatos que requerem o mesmo emprego. Fallavam-se, como os pretendentes se fallam debaixo da Arcada. Cada um tratava de metter memorial, e de arranjar as suas coisas. Havia hotel, o Escoveiro por exemplo, onde dormiam dois a dois, por falta de leitos. Ás vezes intrigavam-se. Finalmente, estavam em Setubal a amar a bella hespanhola como podiam estar em Lisboa a amar o deputado do circulo.

Todos elles possuiam o retrato de Soledad, reproduzido do cliché que um photographo ambulante, temporariamente estabelecido no largo das Almas, durante a estação de banhos, punha ao serviço do amor, na razão de 1$500 réis por photographia. O retratista estava fazendo um grande negocio; parecia ter fome, quando ali chegou, mas, passados dias, ia todas as manhãs á praça do Sapal comprar uma bella posta de carne de vacca e um chouriço, levando tudo para casa n’uma folha de couve.

Estes retratos duravam só mais quatorze manhãs do que a rosa de Malherbe. Quando muito, ao cabo de tres semanas a imagem desapparecia, apagava-se. Os enamorados iam fornecer-se de novo, n’uma grande anciedade amorosa, da qual o photographo ambulante desentranhava chouriços no dia seguinte.

Á hora da ceia, na longa meza dos hoteis, um grupo de amorosos, n’uma orgia de moscatel, brindava pelo amor e pela esperança, havendo cada um encostado á garrafa ou á compoteira o retrato de Soledad. Então extasiavam-se, soltando hurrahs perante o seu talhe mignon, o seu collo de pomba, os seus bellos cabellos negros, caprichosamente amontoados sob as rendas brancas da mantilha, os seus olhos penetrantes como punhaes de Toledo e vivos como carvões accesos, o seu gracioso ar petulante, illuminado por essa luz mysteriosa, que se projecta sobre as mulheres hespanholas, e que se chama—o salero.

O conselheiro Antunes, que tambem estava n’um hotel, não tomava parte n’estas bacchanaes amorosas, condemnava-as mesmo, e tiravam-lhe o somno, quer fosse pelo ciume ou pela algazarra. No dia seguinte queixava-se de persevejos.