Ao anoitecer, o conselheiro Antunes foi, muito disfarçado, bater á porta de D. Enrique.

Respondeu-lhe, do patamar, D. Estanislada, que perfeitamente lhe conheceu a voz.

—Que D. Enrique tinha sahido com Soledad, disse ella, mas que subisse, que lhe dava com isso muito prazer.

Tudo parecia correr ás mil maravilhas para o ditoso conselheiro. Que D. Enrique e a filha haviam sahido, bem o sabia elle: mas a facilidade amavel com que D. Estanislada o recebia em sua propria casa, não estando o marido, era quasi promessa de felicidade... immediata.

O conselheiro, bastante manhoso para dissimular a alegria que esta risonha situação lhe causava, disse, parado ainda ao fundo da escada, algumas palavras aconselhadas por apparencias de conveniencia e respeito.

—Mas, minha senhora, não sei se deva entrar...

—Que entrasse, que subisse, porque, de mais a mais, havia de gostar da companhia.

Esta phrase—gostar da companhia—pareceu maliciosa ao conselheiro. E, a seu ver, a promessa de immediata felicidade accentuava-se n’essa phrase.

Subiu, pois, sentindo palpitar vertiginosamente o coração, que lhe dava saltos dentro do peito.

Mas, entrando na saleta, ficou tão admirado, como contrariado, vendo que D. Estanislada não estava só.