D. Estanislada fez sentar o conselheiro á sua direita, e a sr.ª Magdalena á sua esquerda. A menina Ricardina ficou ao lado da mãe, posição estrategica que D. Estanislada lhe distribuiu... por cautela. Ella bem sabia quanto o conselheiro Antunes, apesar da sua grave encadernação de presidente da junta geral de Santarem, era lambareiro de mulheres.
Emquanto tomaram chá, ao dialogo respeitoso de D. Estanislada e do conselheiro, sobre coisas frivolas, correspondia, debaixo da mesa, outro dialogo bem menos respeitoso: o dialogo dos pés.
Certamente que este dialogo nos interessa muito mais do que o outro. Vamos pois escutal-o.
A bota do conselheiro, explorando terreno:—Onde estás tu, adoravel pé de D. Estanislada? Pois que o teu senhor se acha ausente, pódes vir ao mirante do castello escutar a minha serenata de amor...
O sapato de cordovão de D. Estanislada:—Eu fujo-te, menestrel audaz, para tornar mais intensa a febre dos teus desejos. Bem deves saber que toda eu sou a timida violeta de que fallaste ha pouco.
A bota:—A violeta é a flôr da sombra, e debaixo da meza tudo é sombra e mysterio. Estás, pois, no teu logar, violeta timida. Não me fujas, ó esquiva Galatéa, cujo adorado pé eu ando procurando ás escuras, como um cego d’amor.
O sapato:—Tenho medo de que a sr.ª Magdalena e a menina Ricardina dêem tino do que se está passando no soalho. Para entalação bem bastou já aquella mascarra que o teu beijo de Troia me deixou na face... Não me persigas, que me tentas, seductor!
A bota:—Eu sou discreto como um conselheiro, que me prézo de ser. Muitas vezes, na junta geral de Santarem, tenho tido necessidade de pisar o pé a um collega para o prevenir de qualquer maniversia politica, e a junta nunca deu por isso, tão bem eu sei pisar o proximo! Encantadora Estanislada! fica sabendo que a electricidade procura as extremidades: os meus pés estão, portanto, carregados da electricidade do meu coração. Chega-te, e verás.
O sapato, aproximando-se:—Quem póde resistir á fascinação das tuas palavras, e á discrição dos teus processos?! Pois que tudo se vae passar na sombra, com a cautela de que tu sabes usar, como conselheiro e como amante, consentirei que o meu sapato caminhe para a tua bota, com o pejo, aliás, que fica bem a toda a mulher, e com a timidez que é propria de toda a violeta.