A bota, encontrando o bico do sapato, e arrastando-o ternamente:—Vem, vem finalmente cahir nas doces talas do amor, adorado pé! Quero apertar-te com a ternura com que Romeu abraçava Julieta. Nas dôres physicas do amor, ha uma voluptuosidade que endoidece de deleite. Vem, ó pé feiticeiro! ó pé encantador!

O sapato:—Eis-me aqui, como um escravo que não póde resistir, que não ouza luctar.

Então, o pé esquerdo do conselheiro Antunes, tendo empolgado o pé direito de D. Estanislada, demora-se um momento como para certificar-se de tudo que se está passando em segredo. E, após esse momento de pausa, a bota do pé direito acode a comprimir ternamente, de accordo com o pé esquerdo, o sapato de D. Estanislada, que fica entalado entre as duas botas.

Toda a electricidade acode pois ás extremidades de um e outro.

D. Estanislada, com a perna direita torcida, offerece mais chá á sr.ª Magdalena, e o conselheiro Antunes, com ambas as pernas repuxadas para a esquerda, mette a colhér dentro da chicara, faz menção de não querer mais chá.

Devia ter sido deliciosa toda essa secreta iberisação de duas botas portuguezas junto de um sapato andaluz; deliciosa, principalmente, se nenhum dos pés tinha calos.

A conversação foi-se arrastando á custa da sr.ª Magdalena, que entrou no seu assumpto predilecto, os milagres do Senhor do Bomfim.

D. Estanislada e o conselheiro apenas contribuiam com monossyllabos, interjeições, porque a electricidade, que acudia ás extremidades, os tinha n’uma vibração nervosa, que os entaramelava.

A menina Ricardina, a quem um dos seus namorados havia pisado o pé, n’uma occasião em que jogára o loto em familia, desconfiou da marosca, e as suas suspeitas foram-se accentuando em convicção, porque lhe não passou despercebido que o corpo do conselheiro estava visivelmente esguelhado para a esquerda e o de D. Estanislada enviezado para a direita.