Com essa subtil astucia que é propria da gente moça, a menina Ricardina imaginou tirar a prova real das suas suspeitas. Arrancando do dedo um annel de ouro, começou a brincar com elle sobre a mesa: fazia-o rodopiar, dançar, graças ao impulso combinado dos dedos indicadores.

A folhas tantas, o impulso foi maior e o annel saltou ao chão.

—Ai! o meu annel! exclamou ella, curvando-se rapidamente para apanhal-o.

Pôde ainda, vêr, perfeitamente, a fuga precipitada, e algo ruidosa, dos tres pés cumplices.

D. Estanislada fez-se rubra; o conselheiro fez-se branco. E a menina Ricardina, apanhando o annel, disse com o seu melhor ar de riso:

—Não se incommodem; já aqui está. Muito obrigada.

Aquelle inesperado incidente do annel desarranjou a agradavel união iberica dos tres pés.

O conselheiro, levantando-se, disse que iam sendo horas da sr.ª D. Estanislada se recolher. A sr.ª Magdalena, ouvindo isto, lembrou-se de que ás seis horas da manhã tinha de ir cumprir uma promessa ao Senhor do Bomfim.

Despediram-se todos, e o conselheiro, voltando-se no patamar da escada, exclamou:

—Já me ia esquecendo, D. Estanislada! Encommendei o azeite. Mandaram-me dizer em telegramma que era expedido hoje mesmo ás onze horas.