Era uma razão, mas o conselheiro não a acceitava sem repugnancia:

—Nada! Foi um homem. Certamente o sueco, que andava por aqui. É verdade que elle não me viu entrar, porque fugiu. Mas suspeitou que eu houvesse entrado e, n’essa supposição, veio pregar-nos esta peça.

Nada! teimava D. Estanislada. La voz no era la del sueco!

—Precisamos acautelar-nos, porque podem resultar de tudo isto consequencias muito desagradaveis. Eu sou um homem sério, e se não desejo comprometter uma dama, não desejo comprometter-me tambem a mim proprio. O melhor será eu recolher-me por alguns dias a Santarem, antes mesmo de D. Enrique voltar, porque d’este modo elle não poderá crêr, se lhe chegar aos ouvidos a denuncia, que eu desaproveitasse um só instante da sua ausencia.

D. Enrique nada sabrá, dizia a hespanhola, muito menos timida que o conselheiro.

—Eu sei lá! Isto leva caminho de lhe chegar aos ouvidos. O seguro morreu de velho, e o melhor é acautelarmo-nos. Estanislada, minha rica Estanislada do meu coração, eu vou passar uns dias a Santarem, e voltarei depois.

Que fatalidad! exclamava ella.

O conselheiro não descansou senão quando se viu fóra da porta. D. Estanislada viera antes á janella para o certificar de que não estava ninguem na rua.

—Nada! Não quero comprometter a minha reputação, a minha respeitabilidade, tudo! ia monologando o conselheiro. Amanhã faço constar que o governador civil de Santarem me chamou para um negocio urgente da politica do districto. Faço, pelo sim pelo não, as minhas despedidas, para não alimentar suspeitas, para mostrar que parto mas não fujo, e por aqui me sirvo até mais vêr.