Ambas as noticias haviam sido escriptas pelo proprio Aurelio Goes.
Tambem elle se lembrára de officiar ao ministerio das obras publicas reclamando, para a noite da récita, um comboio extraordinario a preços reduzidos, mas não obteve resposta.
Escreveu a um amigo de Lisboa encarregando-o de encommendar uma coroa de louros, que era para elle, e de ir entender-se com o proprietario da Trombeta, para que lhe fizesse um adeantamento de dois mezes.
A coroa foi logo encommendada, porque o amigo de Aurelio Goes tinha tanto juizo como elle.
Mas o proprietario da Trombeta, que só d’ahi a dois dias poude ser encontrado, recusou-se formalmente a fazer o adeantamento pedido, chegando a dizer ao intermediario que o sr. Aurelio só lhe mandava de Setubal noticias de interesse proprio; que estava muito desgostoso com elle, e que se dentro de quinze dias não regressasse a Lisboa, o despediria da redacção.
Depois d’esta entrevista desoladora, o amigo de Aurelio Goes correu á loja onde tinha encommendado a coroa, para suspender a encommenda, mas, ó fatalidade! a coroa estava já feita, e exposta na montre com este distico, que tinha tambem sido encommendado: Ao notavel e talentoso dramaturgo Aurelio Goes, futuro émulo de Garrett.
Pobre emissario! Ficou entalado, responsavel pela despeza da coroa. Escreveu para Setubal a contar o que era passado, quanto aos louros e á brutalidade do proprietario da Trombeta.
Aurelio Goes respondeu, na volta do correio, que ia arranjar dinheiro para a coroa, que não prescindiria dos louros por caso nenhum, e que fosse dizer ao «tyranno da Trombeta», expressão sua, que dentro de quinze dias estaria de regresso em Lisboa com uma carregação de gloria, que faria subir os fundos da Trombeta.
E, para que tudo coubesse no praso fatal que lhe era marcado, resolveu-se que a récita se realisasse dentro de dez dias.
Activaram-se os trabalhos, Aurelio Goes desenvolvera uma actividade assombrosa, retocava as ultimas scenas da comedia, assistia aos ensaios, e tratava de arranjar dinheiro para os louros.