Vai alta a lumha na mansão di a morte,
Já meia noite com bagar zoou.

Não fui philosophando sobre a deturpação dos formosos versos do poeta portuense. Pensei mais nos cegos que no poeta, Deus me perdôe! Como são cegos, não podem vêr distinctamente a prosodia e a ortographia; isso já se sabe. No que eu pensei foi n'este continuo andar divertindo os outros, sem siquer terem tempo de se lembrar de que são cegos. Lá vão chorando na viola as suas maguas, mas tão disfarçadamente, que á gente parece-lhe que estão cantando, e elles estão talvez chorando. Passam no mundo sem vêr o mundo, e isso pouco lhes importa; o que lhes custa mais decerto é não verem o dinheiro...

N'uma barraca do mercado, um soldado da guarda municipal offerecia morangos a uma criada de servir.

Que delicado amor aquelle, que elles iam mettendo na massa do sangue! O morango é a fructa mais innocente, mais saborosa, talvez a mais agradavel, e este facto, que eu presenciei, depõe realmente muito a favor da educação do nosso exercito. Podiam amar-se com peixe frito, e amar-se-iam assim ha vinte annos; agora o exercito ama comendo morango, fructa que parece haver nascido para se comer de luvas, tão pequenina e rosada é!

Quando recolhia, vinham adeante de mim dois pequenitos, com os seus livros sobraçados.

Pelo que diziam, deprehendi que entravam n'aquelle dia o exame d'instrucção primaria.[{196}]

—Levas medo? perguntava um.

—Eu não. E tu?

—Eu! nenhum!

E, coitadinhos, iam tremulos como passarinhos quando a gente péga n'elles.