Relanceemos ainda um olhar a este mudo conjuncto de coisas inanimadas que o romancista estima como partes integrantes de sua familia. Parece-nos porém ouvir passos no corredor. É decerto Camillo que vem retomar o seu posto de todos os dias. Soou a hora de trabalhar. Antes de sentar-se, festejará a ave da gaiola, aquecerá ao fogão as mãos enregeladas, e abancará depois para escrever um dos ultimos capitulos do romance Herança de Londres ou para traduzir primorosamente algumas paginas do Diccionario de educação, de Campagne.
Antes que o artista entre ao seu atelier e retome a penna que descança sobre o tinteiro desde o alvorecer da manhã, saiamos nós, os que não temos direito a surprehender o escriptor na doce quietação da sua vida intima.[{16}]
Entre o romancista que está escrevendo a novella cujo entrecho será amanhã conhecido das classes menos abastadas da sociedade portugueza e das mais remotas provincias, interpõe-se hoje o reposteiro que separa o escriptor do homem.[{17}]
O PRIMEIRO DE JANEIRO
O Primeiro de Janeiro é como os viajantes que teem de partir ao romper da manhã: passa a noite a fazer a mala.
Quem vae de jornada prepara-se para todas as eventualidades: mette ao sacco seis lenços supranumerarios para uma constipação; a casaca para uma soirée inesperada; um frasco d'agua sedativa para uma nevralgia; dois livros para uma hora d'aborrecimento; os sapatos de borracha para um dia de chuva. Ainda como o touriste, o Primeiro de Janeiro dispõe-se a poder satisfazer todas as reclamações que o assaltem no caminho: para os impacientes leva na mala os telegrammas, para os negociantes as cotações, para os politicos o artigo, para os ociosos o folhetim, para os alviçareiros as noticias, para os interessados os annuncios, e para as senhoras as modas.[{18}]
Os passageiros vão sentados no vehiculo; elle vae a correr pelo caminho. Quando o comboyo parte, apparece-lhes nas Devesas; quando chega a Aveiro, encontram-no na estação; quando passa em Coimbra, o Primeiro de Janeiro salta aos vagões e diz aos viajantes engalfinhando-se na portinhola: Aqui estou!
Que prodigio de ubiquidade é este? Como é que o jornal chega primeiro que o homem! Ah! é porque o homem é o barro, e pesa, e o jornal o pensamento, e vôa. Nasceu da faisca electrica e do vapor; é irmão gemeo da locomotiva. O comboyo leva o homem; o jornal o pensamento. O motor d'um é a machina; o do outro o espirito humano. São os passaros da civilisação, as aguias do progresso. Por isso Arsenio Houssaye disse: «O jornal é a ave errante que atravessa o mundo: prendei-lhe a vossa ideia á asa, e a vossa ideia florirá nos mais remotos desertos.»
Nada ha menos complicado que o jornal e mais complexo que elle: é a sociedade, a raça, a civilisação e o seculo. É o thermometro que mostra o grau da vitalidade popular, a lente que reproduz a lucta das gerações, o melhor historiador e a melhor historia.