Poderemos chamar ao Genesis o jornal da creação do mundo, o que nos leva a crêr que esta manifestação do pensamento publico não data unicamente dos tempos de Guttemberg, mas vae pelas idades a dentro procurar origem no fiat creador que deu fórma e movimento ao nada. Á medida que a intelligencia do homem ia profundando a sonda n'este mar de bellezas infinitas[{19}] que o verbo creador espraiou entre as balisas do universo, e se foram arando os mares, e desbravando as florestas, e povoando cidades e consolidando imperios, a vida das nações tomou um incremento que se não poderia registar em longas chronicas, como os commettimentos da antiguidade, senão que dia a dia, hora a hora, momento a momento. A personalidade moral do homem dilatou-se e, na impossibilidade material de estar em toda a parte, diffundiu o seu pensamento em particulas que voaram aos grandes centros attrahidas pela gravitação que regula a harmonia das sociedades. Então o jornal renasceu de si mesmo, multiplicou-se, e começou a collaboração universal dos povos á beira da prensa d'onde todos os dias parte o mensageiro alado a sacudir da plumagem as ideias que o homem lhe prendeu. É o correio do mundo, o postilhão dos seculos; anda sempre e não cança. Cada geração tem o seu temperamento collectivo, as suas paixões, as suas luctas, os seus revezes e os seus triumphos. O jornal, que é tudo isso, irá resuscitando amanhã do tumulo que se fechou hontem, e acompanhará o movimento febril das gerações que se succedem. O que viajar mais depressa, será sempre o mais querido. Espera-o a officina e o albergue com a impaciencia de quem sabe a hora a que deve chegar um mensageiro. A velocidade é indispensavel, mas ainda não é tudo. É preciso que o jornal não seja egoista, não roube ao operario o pão do corpo para lhe dar o pão do espirito, que não esbulhe as creanças do patrimonio que o salario do pae vae dilatando cada dia. Urge[{20}] pois que o jornal tenha azas para chegar depressa, e que reuna á velocidade a modicidade para sustentar equilibrio entre a receita intellectual, que o jornal representa, e a receita economica, que o trabalho produz.

O Primeiro de Janeiro reune estas duas condições maximas, que se completam pela sanidade da doutrina, e mais d'uma vez tem nas primeiras horas do dia entrado ao albergue e á fabrica firmado pelos primeiros escriptores do paiz. Realisa o desideratum que em 1848 intensamente preoccupava o espirito de Alphonse Karr: «Eu publicava então em Paris—diz o author das Tresentas paginas—um jornal a 10 reis, no qual collaboravam os nomes mais celebres e mais festejados. Queriamos vêr se as classes populares preferiam—como pensam alguns—o vinho tinto das barreiras ao Château-Laffitte e ao Rheno;—queriamos fazer a experiencia e dar-lhes o Château-Laffitte e o vinho do Rheno pelo preço do vinho d'Argenteuil. Por dez reis—o preço das mais grotescas e das mais odiosas especulações—fazer vender um jornal bem impresso, em bom papel, com artigos dos mestres da litteratura.»

O Primeiro de Janeiro entrou abroquellado no certamen. Quiz vêr se o povo preferia o vinho da Bairrada ao vinho do Porto, e conheceu que era essa uma calumnia de pessimistas aristocratas. O povo lia a Formosa Mangalona e o Vicente marujo porque lhe não facultavam um jornal que simultaneamente lhe ensinasse as evoluções do mundo physico e do mundo moral, não porque o jornal tivesse a pretenção de resumir em si a[{21}] sciencia universal, mas porque da natureza mesma dos assumptos do dia derivavam os conhecimentos que o jornal espalhava. Trabalhou para lhe dar o vinho do Porto pelo vinho da Bairrada, e provou que a inanidade das classes baixas provinha do abuso da zorrapa com que dessedentavam o espirito diante da litteratura de cordel e cego andante. Luctou, batalhou, e conseguiu dar ao povo, por dez reis, um almoço de politica e litteratura,—o romance das nações e o romance dos homens.

Alphonse Karr, quando estava empenhado em tão santa crusada, devotou-se inteiramente a ella; não visitava o seu jardim de Sainte Adresse; esqueceu as flores e o mar. O Primeiro de Janeiro vive igualmente para o povo. Emquanto o povo dorme, vae o prelo imprimindo a ideia que pela manhã ha de saltar na rua.

Enxameiam á porta os gavroches como soldadesca impaciente de dar batalha. Esperam o almejado momento de transpôr o limiar. E no phrenesi do desespero saracoteam e gritam:

—Abram!

—São horas!

—Já é tarde!

Sentem ranger os gonzos. Apinha-se a multidão em vaga encapellada, e entra de tropel. Os empregados da machina dobram os jornaes. O distribuidor está de pé.

C'o a mão no junco, irado e não facundo,
Ameaçando a terra, o mar e o mundo.[{22}]