Acha o snr. Theophilo Braga que a idade do poeta e da infanta, em 1521, eram incompativeis entre si e a tresloucada paixão que a lenda attribuia a um homem de quarenta e seis annos por uma donzellinha de dezesete. Acha outrosim que a ingenita altivez do caracter de D. Beatriz não lhe permittiria descer até acceitar o galanteio de um trovador, de mais a mais amadurecido em annos.

No amor não ha incompatibilidades possiveis. Na historia de Portugal abundam estes desacertos de idade e de condição em assumptos amorosos.

A nós não nos repugna o facto de Bernardim Ribeiro, um poeta, se ter apaixonado por uma dama da côrte, que todavia, como diremos, não suppomos fosse a infanta, não obstante a desproporção das idades.

Mas, se D. Beatriz foi a inspiradora da paixão do poeta, o que podêmos provar com documentos historicos é que ella o esqueceu em Saboya, se algum dia o amou ou se soube que foi amada por elle.

Não é natural que D. Beatriz, tão magoada como o codice publicado por Herculano nol-a pinta, se absorvesse tão profundamente, e tão estranha ao seu proprio passado, nos deveres de esposa e princeza, como realmente acontecêra em Saboya, e como vamos mostrar.

É verdade que a lenda romantica conta que a duqueza de Saboya, reconhecendo o poeta no disfarce de mendigo á porta de um templo, lhe disséra, dando-lhe esmola:—«Já lá vai o tempo dos antigos galanteios.»

Mas tão empenhada a vamos encontrar nos negocios politicos e domesticos da côrte de Saboya, tão despreoccupada de recordações amorosas, tão adaptada moralmente ao meio em que se encontrava, que estamos convencido de que, se Bernardim Ribeiro a amou, não foi correspondido ou só ephemeramente o foi, o que não seria natural n'uma princeza educada nos serões galantes do Paço da Ribeira, sabendo-se amada por um poeta, e vivendo sacrificada na companhia de um marido, que não era poeta, e cujo desgracioso feitio as chronicas memoram.

Se, como quer o snr. Theophilo Braga, a Aonia da Menina e Moça é D. Joanna de Vilhena, primeira condessa de Vimioso, a Condessa Santa, completo foi o seu esquecimento do amor que inspirára ao poeta.

«Emquanto viveu o conde, escreve o padre Francisco da Fonseca na Evora Gloriosa, o imitou, e acompanhou em todas as obras virtuosas, attendendo cuidadosamente á educação de seus filhos, e ao prudente governo da sua familia, e casa, que debaixo da sua direcção era convento com apparencias de palacio. Era inimicissima do ocio, e por isso assim ella, como todas as suas criadas, se occupavam continuamente nos exercicios proprios do seu estado, umas cosiam, outras fiavam, outras faziam rendas ou fios para curar os necessitados. O mesmo usava com as senhoras, que a vinham visitar, dando a cada uma d'ellas algum trabalhinho, com que se entreter; e entretanto, ou lhe lia algum capitulo dos documentos, que o conde tinha composto, e lhe contava algum exemplo, ou historia santa, com que adoçar o trabalho; o que fazia com tanta graça, que assim sua irmã D. Brites, duqueza de Coimbra e Aveiro, com todas as mais senhoras continuavam e frequentavam com gosto a escóla de D. Joanna. Morto o conde, se deu totalmente a Deus, e, abraçando a terceira ordem de Santo Agostinho, fez uma vida verdadeiramente de santa. Remendava por suas proprias mãos os habitos dos frades, e lhes fazia o comer, quando estavam enfermos, amando-os e consolando-os a todos, como se fossem seus filhos: o mesmo praticava com as religiosas de Santa Catharina, e porque viu as lagrimas e suspiros da pobreza eborense por causa da falta que lhe fazia a morte de seu querido esposo, tomou muito a sua conta enxugar-lhe as lagrimas com opportuno remedio: escolheu para capellães e esmoleres a dous sacerdotes exemplares, em cuja companhia ia todos os dias visitar os enfermos da sua parochia: seguiam-n'a dous escravos, carregados de tudo aquillo de que podiam necessitar os enfermos, e ella por si mesma lhe repartia todos os mimos e os regalos: com estas, e outras muitas santas obras, continuou a nossa condessa a sua exemplarissima vida até os 24 de julho de 1559 em que Deus a chamou para a gloria.»

A dama que inspirára a paixão de Bernardim Ribeiro tinha os olhos verdes.