—Não tens que agradecer, disse João Nicolau rindo e batendo as palmas de contente.—Sim, senhora! Vossa excellencia está hoje espirituosa! Receba os meus parabens. Iremos ao Bom Jesus quando quizer e mande convidar as familias do nosso conhecimento para nos fazerem companhia esta noite. Solemnizemos a recepção do rapazinho. Se queres que te diga—accrescentou mudando de tratamento—tive hontem pena d’elle. Eram dez horas e já tinha somno. Tambem não sei o que fazes do piano! Já és avó, é verdade, mas a velhice ainda não te immobilisou os dedos. Pois venham lá as Machados, e haja ao menos musica uma noite...

—Então queres?

—Quero. Manda convidar. Que lá padre ha de elle ser. Ainda lhe hei de ouvir um sermão...

—Se não fôr seccante, disse D. Maria d’Assumpção sahindo da sala.


II

Thomaz Ignacio Machado tinha sido um homem dinheiroso. Abriu, em Lisboa, os salões do seu palacete á flor da aristocracia olyssiponense, deu bailes esplendorosos, pompeou em cavallos e trens, teve aventuras com dansarinas de S. Carlos, jogou o monte com a sobranceria d’um homem que não joga para ganhar e... achou-se arruinado no dia em que pensou no futuro que o estava esperando.

O Creso, apeado do seu pedestal de ouro, emboscou-se nas moitas verdejantes d’uma quinta proxima a Braga, e ahi veiu descansar das saturnaes esplendidas de Lisboa com o intuito de bemfeitorisar as propriedades obrigadas ao dote da mulher e de velar por tres innocentes meninas, suas filhas, salvas da tormenta na arca sagrada do coração materno.

Chamava-se Emilia a mais velha, que morreu aos vinte e dois annos tisica, se não victima d’uns amores desventurosos, que não fazem ao nosso proposito.