Rosa e Maria Luiza viviam ainda, como o leitor inferiu do capitulo anterior.
A custo de muitas economias pôde Thomaz Machado rehabilitar a casa consideravelmente esbanjada e obter os rendimentos necessarios, não para a vida faustosa de Lisboa, mas para uma decencia estimavel então, e invejavel ainda hoje.
Veiu, pois, Thomaz Machado residir em Braga, e, após dois annos de apartamento na quinta do Prado, alugou casa na rua de Santo André.
A mallograda Emilia morrera na quinta do Prado, ao cabo d’um anno de tão melancholico exilio.
Rosa, no tempo a que somos obrigados a remontar, tinha vinte e um annos; Maria Luiza, dezenove.
Rosa não era uma belleza. Tinha, porém, um trato tão suave e delicado, um quê de meiguice e de ternura, que diffundia encanto. Maria Luiza, ao contrário da irmã, era um demonio bonito. Conversava com os homens mais do que com as senhoras, valsava com delirio, tinha a ironia prompta e o epigramma certeiro, tocava piano e recitava versos, cantava seguidillas e desvelava um vaso d’alecrim do Norte que tinha ao canto da janella. Era trigueira e possuia uns olhos negros que nadavam em luz. Parecia que não andava; voava. Ouvia-se um ruflar de azas; olhava-se... era ella. Não houve ainda mulher mais flexivel, nem mais elegante. Era quasi uma columna de fumo, que ondulava no espaço e que desapparecia com um sôpro. Lembra-me comparal-a áquella creatura aerea, vaporosa, que nós conhecemos d’um livro d’Octavio Feuillet. Maria Luiza tinha seus laivos da condessinha do escriptor francez. Era porém mais intelligente e menos desenvôlta. Ainda assim com que salero, puramente andaluz, não batia ella as mãos, correndo do seu alecrim para o seu piano e entoando a meia voz um fragmento de seguidilla:
El amor que te tengo
parece sombra;
quanto mas apartado
mas cuerpo toma.