«Minha boa amiga:
Escrevo-lhe do Porto. Sabe já decerto que meu pae morreu. Occulte-o a ella, por quem é, occulte-lh’o. Como sentiria as dores que eu só devo sentir, se ella o soubesse! Podia talvez peorar.
«Quando olho em mim, e conheço que levei a minha desgraça áquella alma, que não a merecia, sinto remorsos de a ter amado. Que Deus me perdôe, e a salve a ella. Não posso ser mais extenso. Basta dizer-lhe que meu pae baixa hoje á sepultura. Voltarei dentro de pouco dias.»
—Rosinha, minha irmã, reza commigo a Nossa Senhora. Rezemos por elle, que é muito infeliz; por mim, não, que eu sinto-me boa.
E brilharam-lhe lagrimas nos olhos. Sobreveiu um frouxo de tosse, e após a tosse uma lufada de sangue...
Passadas horas, respondia Rosinha a occultas da irmã:
«Occultamos-lhe a morte de seu pae. Procuramos, porém, afastar um mal, e approximamos outro. Mando-lhe o bilhete que ella me dava hontem para eu lh’o fazer entregar, na supposição de estar, em Braga. Continuei ainda a occultar a cruel verdade sem pensar nas consequencias funestas da minha dedicação. Á conta de esquecimento tomou ella a sua ausencia. Era manifesto que soffria muito quando recolhemos, mas foi-me então impossivel remediar o mal, revelando toda a verdade. Ás nove horas da noite, sentia-se muito incommodada e momentos depois abafava-lhe a voz uma onda de sangue. Pobre irmã! Venha depressa, que eu sinto que me falta o ánimo. Hoje confessei-lhe tudo. Quiz lêr a sua carta, e lamentou-o muito com os olhos cheios de lagrimas. Vamos amanhã para o Bom Jesus. O facultativo aconselhou ares mais puros sem perda de tempo. Venha depressa, sim? A precipitação com que lhe estou escrevendo explicará o laconismo destas linhas.»
Quando Rosinha voltou ao quarto, disse-lhe Maria Luiza:
—Tu respondes hoje?
—Eu! Não tenciono.