Quantas vezes, ao despregarmos os olhos do azul purissimo em que se esbatem os contornos d’uma paizagem deliciosa, não sentimos passar no espirito uma tristeza subita, acompanhada do receio de não tornarmos áquelle sitio?

Maria Luiza não se despedia das arvores da floresta, porque devia a Deus o esquecer-se da realidade da vida, á beira do tumulo, embalada n’uma esperança que o seu espirito em outra occasião não teria acceitado. Esta doce tranquillidade, quando a vida lhe fugia veloz a cada momento que passava, tomemol-a á conta de prodigioso effeito d’uma extranha causa. Eu, de mim, elevo o meu pensamento a Frei Domingos do Amor Divino...

Maria Luiza não se lembrou, pois, n’aquelle dia, de que poderia ser o ultimo em que tremessem sobre os seus cabellos as sombras ondulantes do arvoredo da serra. Mas nós—os que furtivamente a acompanhamos, os que sob o toldo sonoro da alameda a vimos amar e soffrer, os que nos costumamos a querer áquellas arvores como ella mesma queria—nós digamos adeus aos mil encantos que se escondem no crepusculo perpétuo da floresta, que não sabemos se o destino nos deixará acompanhar outra vez a pallida visão, avergada pela morte.

Adeus, sombras e murmurios, aves e ninhos, fontes e arvores. Adeus, flores silvestres e borboletas que vos amaes. Adeus, folhas verdes que sois namoradas dos seixos côr de rosa; adeus. Quem sabe? Talvez para sempre—adeus.


XXXII

São de Eduardo Valladares estas palavras:

«No dia 5 de abril, fui chamado á pressa ao Bom Jesus por um creado da viuva Machado que, ao romper do dia, batera á porta da casa de meu avô.

«Vesti me com precipitação e sahi immediatamente. Tão violentas eram as pulsações do meu coração, com tamanha velocidade caminhava eu, que tinha de parar a cada momento, suffocado, para poder respirar. Esta demora mais augmentava a minha sobreexcitação.