«Eu tinha passado a noite, até ás onze horas, no Bom Jesus. Para evitar assumptos inopportunos, adoptei o costume de lêr. Maria Luiza, que só a custo podia falar, e que tinha sido obrigada pelo medico a estar silenciosa, applaudiu a minha idéa, e gostava muito de me ouvir. Quando se me deparava alguma passagem que não convinha lêr, por ter maior ou menor relação de semelhança com a nossa dolorosa situação, passava-a em claro continuando a leitura. Maria Luiza, que conservava um admiravel vigor de faculdades intellectuaes, notava a incoherencia, e obrigava-me a voltar atrás para justificar a censura.
«Assim passavamos as noites, e assim passámos a de quatro d’abril. Quando desci a montanha, havia um formosissimo luar que tremia em scintillações na concha das fontes. O silencio, o grande silencio das noites da serra, era apenas quebrado pelo murmurio cadenciado e monotono das aguas.
«Em baixo, no valle, lampejavam os reverberos da cidade. Tudo o mais era silencio e luar.
«A minha alma vinha entregue ás tribulações de todas as horas, mas não me atravessava no coração o presentimento de tão proxima desgraça.
«Maria Luiza tinha estado a ouvir-me lêr, alegre, tranquilla, sem denunciar maior soffrimento. Ás onze horas sahi, para voltar na noite seguinte. O dia gastava-o eu nas aulas, e a estudar. Só os dias feriados os passava todos no Bom Jesus.
«A verdade é que, depois de eu sahir, se queixara d’insomnia, e de frio de pés. Logo lhe purpurearam as faces duas rosetas escarlates que denunciavam accesso de febre. Sobreveiu a agitação, a impaciencia. Perguntava anciada se já era dia, se eu não chegava, porque queria ir commigo á Mãe d’Agua para respirar livremente. Mandou que lhe abrissem as janellas para reconhecer a claridade da manhã. Abriram-lh’as. Como visse o luar e as estrellas, contorceu-se febricitante. Foi então que expediram o creado que me chamou. Durou bastante tempo o frenesi, após o qual veiu uma violenta hemoptyse.
«Ficou extenuada a pobresinha, sem poder respirar. Era a prostração que precede a morte...
«Quando eu cheguei, quando me ouviu a voz, descerrou os olhos, deu aos labios o geito d’um sorriso, e murmurou com extrema difficuldade: Não posso... Queria ir comtigo... Não te esqueças de mim... Morro decerto...»
Eduardo Valladares deteve se suffocado pelas lagrimas. Esperei que pudesse continuar:
«Queria vir á Mãe d’Agua, não talvez para respirar melhor, mas para se despedir, porque só então conheceu que morria. Foi no dia trinta de março de 1853 que pela ultima vez estivemos aqui, na Mãe d’Agua. O medico, receoso da extrema frescura da alameda, não consentia que viesse.