«Aqui tem como ella morreu... Que ella morreu, não... que deixou a terra... O seu derradeiro pensamento foi para mim e para o sitio querido dos nossos amores...

«Está sepultada no mesmo cemiterio onde jaz a irmã, ao pé da mesma sebe engrinaldada de flores silvestres. O seu corpo está lá, na valla coberta de boninas, mas sinto aqui, na Mãe d’Agua, alguma coisa que me denuncía o perfume da sua alma. Dir-se-hia que respiro aqui a essencia da flôr que se engastou nas constellações do Céo.

«Deixe-me abreviar esta narrativa, porque vou sentindo que me faltam as fôrças. Resta-me resumir o que se passou desde 5 de abril de 1853 até hoje, 15 de julho de 1870.

«Da minha familia resta apenas minha mãe, que vive da minha dôr, e é o unico esteio a que me abraço, quando mais desconfortado me sinto.

«Frei Domingos do Amor Divino morreu em 1860.

«Ao entrarmos na egreja do Carmo, onde se rezaram os reponsos por alma do virtuoso Fradinho, hoje santificado pela opinião publica, disse-me Rodrigues d’Abreu:—Vamos, meu amigo. Devemos ambos muito á memoria d’esta boa alma. E olhe que não sabe ainda tudo quanto lhe deve...

«Estas palavras despertaram a minha curiosidade. Quando sahimos, o sabio bibliothecario circumstanciadamente me contou como Frei Domingos se empenhara pela minha felicidade. Fiquei surprehendido. Rebentáram-me lagrimas em jôrro. Depois que nos despedimos, voltei á egreja do Carmo. Já estava fechada. Entrei em casa e orei por longo tempo. Levantei-me tranquillo e fui buscar a velha Gertrudes, que sobrevivera a seu velho amo. Estava inconsolavel. Dei-lhe abrigo em minha casa durante os oito mezes que ainda teve de vida. Do que a Gertrudes contou e do que Frei Domingos revelara, coordenei os apontamentos que sei da sua vida.

«Rodrigues d’Abreu, o coração nobilissimo, expirou, como sabe, ha sete mezes, a 6 de dezembro de 1869.

«Resta-me falar da familia de Maria Luiza.

«A viuva Machado, avisada do risco que corria a vida da unica filha que lhe restava, se não procurasse melhor clima, sahiu para a ilha da Madeira. Rosinha casou no Funchal, cuido que por inclinação, onde vive em companhia da mãe e do marido.