Merecidos eram sem dúvida taes applausos.

Nos versos do filho do bacharel Valladares havia poesia, se poesia se pode chamar este alar-se da alma para um mundo phantastico onde se ama já uma mulher que ainda se não viu.

Os que entendem que a poesia é uma coisa que elles mesmos não entendem, o nebular a phrase de modo a encobrir a carencia d’uma idéa aproveitavel, esses, apostolos do germanismo transmontado, rir-se-hão da futilidade d’um poetar singello cadenciado na lyra incorrecta dos dezeseis annos.

Maria Luiza Machado, como enthusiasta por versos, pediu ao poeta a cópia dos seus. Isto bastou a travar-se conversação.

—Bem me parecia—disse ella—que o seu coração devia, para cantar mavioso aos dezeseis annos, sentir um raio de sol que o inspirasse.

—Peço desculpa para redarguir a v. ex.ᵃ Os meus versos são talvez uma prophecia. A alma, ainda não adestrada para luctar com as procellas do mundo real, cria para si uma região phantastica.

—Seja como fôr, tornou ella. Desejo possuir os seus versos. Quando m’os dá?

—Amanhã.

Pactuou-se, no fim da soirée, o primeiro passeio ao Bom Jesus, no domingo proximo.

Recordações d’essa noite ficaram muitas e immarcessiveis na alma de Eduardo Valladares. Depois da ultima quadrilha, quando os convidados retiraram e a sala ficou deserta, é que foi o escurecer-se subitamente aquella alma, que mergulharia em profundas trevas, se a imagem esplendida de Maria Luiza lhe não rareasse, a instantes, as sombras interiores. Um olhar e uma phrase d’ella fôram as ultimas impressões d’essa noite.