—Seja como fôr. Desejo possuir os seus versos, disse-lhe ella.
E abriram-se-lhe os labios n’um sorriso de fada.
—Mas, dizia de si para si o filho do bacharel Valladares, tenho apenas dezeseis annos e deixo-me assim embalar nos braços de uma esperança dulcissima que me pode fugir amanhã!
Durante os dois dias que decorreram desde essa noite até o domingo seguinte, annuviou-se o semblante de Eduardo a ponto de João Nicolau fazer reparo na extranha tristeza do rapaz. Quedou-se o velho a scismar no visivel desgôsto do neto e não lhe rasteou origem. Isto inquietara-o sobremaneira. Revelou á esposa as suspeitas e dúvidas que o embaraçavam; conchavaram-se os dois no proposito de dar finalmente com a chave mysteriosa do enigma.
Passadas algumas horas depois d’este secreto colloquio dos dois velhos, D. Maria da Assumpção foi dar com o neto emboscado na ramaria d’uma olaia que sombreava o angulo do quintal. Estava o moço d’olhos pregados no horizonte recortado pelas arvores verdejantes dos quintaes da rua de Santo André.
D. Maria d’Assumpção seguiu por alguns momentos a direcção do olhar do neto e o mesmo foi despeitorar-lhe os mais intimos segredos do coração. Subiu as escadas precipitadamente e chamou o marido a uma das janellas sobranceiras ao quintal.
—Olha, disse-lhe ella apontando para o neto. O coração—o coração dos dezeseis annos sobretudo—ha de ter sempre d’estas contradicções. O excesso da felicidade acarreta d’estas maguas. O que elle deseja é o momento de tornar a vêl-a... São chuveiros d’abril, que não inspiram cuidado.
—Olha que a mocidade d’agora começa muito cedo a tresnoitar-se! O amor dos dezeseis annos! Lêsse-se este caso n’um livro a ver se alguem o acreditava! No nosso tempo não se vivia tanto em tão poucos annos.
—Ahi estás tu a denunciar a edade que tens! É sestro dos velhos andar a reprehender os novos, e o que elles pensam e fazem. Não se vivia tanto em tão poucos annos! disseste tu. Já te não lembras da historia d’uns amores em que falas quando vem de geito citar façanhas da mocidade...