—É uma historia que tem graça. Da janella do meu quarto, no collegio onde me eduquei, andava eu a espreitar nas horas de recreio para a janella d’um terceiro andar onde morava uma costureirinha d’olhos negros...
—Uma costureirinha! O teu neto revela mais fidalgos e poeticos instinctos. Ama romanescamente. Tu andavas mais terra a terra. Não tens que vêr. Iremos domingo ao Bom Jesus.
—Iremos se quizeres. Não sei que systema teem ás vezes as mulheres!
—O meu systema é o do jardineiro experimentado. É preciso cuidar da flor, dar-lhe sol, para que desabrochem depois todas as galas que a Providencia lhe der.
—Anda lá, anda lá, quero ver se a theologia lhe ha de dar tempo para andar com a cabeça á roda!
IV
Batiam sete horas da manhã nas torres do Bom Jesus do Monte, quando João Nicolau de Brito, sua mulher, Eduardo e as duas meninas Machados subiam em alegre caravana o escadorio do santuario. Pelo que diz respeito aos dois velhos, em cujo grupo faltava a viuva Machado, iam cansados da subida; não assim os companheiros, que saltavam alegremente d’escada em escada, como tres avesinhas que voltassem no mesmo dia á liberdade do ar, depois d’uma reclusão asperrima, e fôssem chilreando de fronde em fronde pela encosta acima.
Affluiram, n’esse dia, ao Bom Jesus muitas familias de Braga, de sorte que se augmentara consideravelmente a ruidosa caravana.
Demoraram-se na hospedaria João Nicolau, sua mulher e os outros velhos, seus conhecidos, trôpegos de rheumatismo; o resto da caravana errava pela montanha ao sabor de cada um.