Eduardo Valladares sentiu por momentos necessidade de conversar com a sua alma em jubiloso dialogo. Subiu ao largo dos Evangelistas, e embrenhou-se na matta sombria da Mãe d’Agua.

Estava elle escrevendo a lapis na carteira, quando casualmente descobriu, através da folhagem, um vulto indistincto.

Encobriu-se com o muro posterior á mina e ficou d’atalaia, a coberto da parede. Passados alguns momentos reconheceu ser Maria Luiza e sentiu bater-lhe o coração vertiginosamente.

Vinha ella, pensativa, subindo a alameda. Depois sentou-se n’um banco de pedra e descahiu a scismar, encostada á mesa, que tambem era de pedra[2].

Eduardo Valladares espreitava-a silencioso. Ora sentia estuar-lhe o sangue nas arterias escandescentes ora esfriar-se com esvahimentos de moribundo anciado. Maria Luiza quedara-se a scismar com os olhos fitos no vago e o rosto descansado na mão. É um mysterio que se não comprehende, um enigma que se não decifra—o que seja este vago d’uns olhos contemplativos, o ponto indistincto e nebuloso onde se fita o olhar, a não ser que esse ponto seja a lente que reflicta o olhar de si mesmo namorado. Pois em que mais se pode extasiar uma alma venturosa a não ser na intima contemplação da primavera interior? Dizem pois, e dizem bem, os que entendem do coração, que os olhos são o espelho da alma e o olhar a muda expressão do sentimento que a domina. Tudo isto nos vae levando insensivelmente a uma conclusão provavel. Pois se o olhar é o reflexo da alma, se a alma está absorta em júbilo, e se a vista se concentra n’um ponto unico, quem poderá duvidar de que esse ponto seja a lente mysteriosa que está espelhando o fogo do nosso olhar, o fogo da nossa alma? Ora se não é isto o vago d’uns olhos contemplativos, não sei eu bem o que seja o vago. O que sei, porém, é que todas as almas placidamente inebriadas teem d’estas horas de arroubo em que os olhos se embellezam no azul d’um horizonte desconhecido aos outros.

Estava, pois, Maria Luiza extasiada n’estes ineffaveis enlêvos, quando sentira cahir-lhe aos pés um papel, que mão invizivel impellira. Despertou de subito d’aquelle dulcissimo far niente, que é o sonhar accordado da alma. Pegou no papel e desdobrou-o precipitadamente; desdobrou-o e leu-o.

Dizia assim:

«Disse a rosa á borboleta:

—«Abre uma aza, inquieta,

Faze-me d’ella um docel...»—