João Nicolau subiu a montanha abordoado á sua bengala de canna da India, galhofando com ares de sincero e expansivo contentamento. Eduardo Valladares parecia, ao contrário de todos, entre concentrado e triste. O avô olhava para elle de soslaio e dizia de si para si:—«Lá vae o rapaz com a maldita poesia!»

D. Maria d’Assumpção, que de sobra conhecia as angustias do neto, pensava compadecida:—«Pobre martyr!»

Maria Luiza reprimia no coração dolorosas tempestades, e desabrochava nos labios um sorriso que daria fel bastante para muitas lagrimas.

Cêrca do meio dia, Eduardo Vallares e Maria Luiza puderam encontrar-se na Mãe d’Agua.

Foi dolorosamente triste o mudo dialogo d’uns olhos que, n’um momento de silencio, resumiram as mais pungentes expansões.

Olharam-se, e não puderam articular uma unica palavra. Decorreram alguns momentos que valiam seculos d’angustia. O filho do bacharel Valladares pôde alfim dominar a commoção que lhe estrangulava a voz na garganta.

—Esperava por este momento anciosamente, disse elle. Escrevi-te, procurei no écho da tua alma um allivio para os meus infortunios, mas escrever-te não bastava. Era preciso ver-te, ouvir-te, escutar-te. Ha dois mezes que eu abafo no coração a procella do desespêro. Oh! Dá-me um raio d’esperança para eu não morrer, dize-me ao menos que me amas para que eu tire das tuas palavras a coragem que me falta. Ha dois mezes que eu esperava a hora de poder escutar a tua voz como a alma condemnada aos tormentos do purgatorio deve esperar o momento de subir, expurgada das suas culpas, á bem-aventurança do Céo. Oh! isto é horrivel, meu Deus!

A pobre menina tremia agitada pela convulsão dos nervos, e sentia fugir-lhe a voz e a vista.

—Dilacera-me o remorso, continuou elle com violenta commoção—dilacera-me o remorso de ter acorrentado a tua alma angelica ao poste da minha desgraça. Sacrifiquei a tua alegria, a tua tranquillidade, o teu futuro, a tua vida ao egoismo do meu coração. Amar-te não bastava? Quiz tambem ser amado, e despenhei-te, anjo innocente, das paragens remançosas onde te libravas descuidosa e tranquilla. Quiz tambem ser amado e impuz á tua alma o sacrificio de exgottar o calix da amargura ao tempo que o teu amor dulcificava os filtros celestiaes que me embriagavam. Perdôa-me, oh! perdôa-me, por que o meu amor era immenso, indomavel, e eu preferia morrer, a ver desfeita a minha esperança, a ver desabar o meu sonhado paraiso...

—Se te perdôo! murmurou maviosamente Maria Luiza. Perdôa-me tu, que é por mim que tu soffres...