—Ah! interrompera a elle de golpe. Pois é certo que me perdôas? Que importa então que imponham á minha alma um futuro que ella não pode acceitar! O escravo, o humilde, o servo de gleba ha de erguer-se soberbo da riqueza da sua alma, e repellir a mão que ao mesmo tempo empresta um futuro que nos repugna e exige como hypotheca a felicidade de duas existencias consubstanciadas n’uma unica. Irei trabalhar para onde a sorte me levar; procurarei em toda a parte o que me vendiam aqui a trôco de lagrimas, mas terei no meu coração a dulcissima alegria da esperança, da esperança que me queriam roubar para me garantirem a felicidade material da vida, como se a vida sem a esperança não fôsse uma ironia cruel e deshumana! Irei, é preciso fugir...
—Fugir! fugir! Dize antes que me queres roubar a consolação de compartilhar as tuas angustias. Fugir e deixar-me sósinha, entregue á minha saudade, á minha desventura, ao meu desespêro! Dize antes...
—Cala-te, por alma do anjo que morreu beijando-te, cala-te. Peço-t’o eu.
—Fugir! E querias assim despedaçar as ternas cadeias que nos prendem um ao outro, só para alimentares no coração a esperança de reatal-as um dia?
—Perdôa-me, que eu fui cruel, porque me enlouqueceu a dôr. Não te ver, não te ouvir! E poderia eu viver? Iria morrer longe de ti, anjo do meu coração, sem ouvir na hora derradeira, á beira do meu leito, o murmurio das tuas orações...
—E depois, com que profundissimas dôres não irias despedaçar o coração estremoso de tua mãe! com que maldito tormento não irias infernar a velhice de teu pae e levar a desgraça á serenidade alegre da tua casa!
—Comprehendo a nobreza da tua alma, anjo. Agradeço-te por mim, por minha mãe, por meu pae, por Deus. Ficarei. Acceitarei resignado o sacrificio que me impõem e appellarei para a Providencia, que vela por todos os desgraçados. Juro-te que serei submisso.
—Obrigada. Pertence-me metade das tuas afflições e como poderia eu luctar com o destino se me faltasses tu a dar-me alento nas horas attribuladas da nossa commum desventura?
—E has de soffrer tu, santa do martyrio, que merecias a felicidade na terra? E hei de eu ser teu algoz, eu, que te amo até á loucura? E hei de eu ser teu algoz e sacrificar a tua alma immaculada, exigindo que soffras, que chores, que morras na lenta agonia dos desgraçados, só por que eu tambem agoniso, e choro e soffro? E não ha de Deus escutar-nos e não ha de o céo condoer-se das nossas afflicções! Oh! sinto na minha alma a labareda maldita do inferno!...